Claudia Werneck  jornalista formada pela UFRJ com aperfeioamento em Comunicao e Sade pela FIOCRUZ. Em 2000, tornou-se a primeira escritora no Brasil com livros recomendados pela Unesco e pelo Unicef. Em 1998, recebeu o ttulo de Jornalista Amiga da Criana pela Agncia de Notcias do Direito da Infncia e Fundao Abrinq.  idealizadora e diretora executiva da ONG Escola de Gente Comunicao em Incluso. Foi chefe de reportagem de Pais & Filhos e editora de Pais & Filhos Famlia. Desde 1996 integra o Down Medical Interest Group. A leitura de seus oito livros  indispensvel para quem desejar entender os conceitos de educao, de literatura, de mdia e de sociedade inclusivas, temas que Claudia Werneck foi pioneira a disseminar pelo Brasil. 

Sociedade Inclusiva 
Quem cabe no seu TODOS? 



WERNECK, Claudia ,1957
Sociedade Inclusiva. Quem cabe no seu TODOS?
Rio de Janeiro:WVA- Ed., 1999. 240p.


Obrigada 

Ao meu irmo, Beto Werneck, por dar face aos meus escritos, torturando-me at o ltimo minuto,  verdade, o livro fechando E ... cad a capa? O Beto est terminando uma campanha nova, ainda no teve tempo de fazer. Acho que nesses momentos ele se vinga daquele dia, quando ramos crianas, e quebrei a cabea dele na quina do armrio. No faz mal. suporto TUDO. Eu no imagino mesmo ver minhas idias Publicadas sem a beno de sua arte, expressa por generosa ,ao de freelantropia, como ele diz. Meu irmo, te adoro. Vo longe ao te admirar. Tambm pela forma como  pai, da Lara e do Yuri. 

Aos meus outros irmos, Larissa e Andr Luiz, que em sua juventude s me falam de possibilidades. E que quero bem junto de mim.  Lal, futura jornalista, o meu seja bemvinda  mais instigante de TODAS as profisses. 

A minha me, Vera Marina, mulher mais charmosa e inteligente do mundo, meu tero, sempre, sempre, sempre, sempre,sempre, sempre ao meu lado, incansvel, me ajudando no que eu precisar, desde organizar com tanto carinho e preciso a bibliografia deste livro a ... Voc pode ficar exausta, mas eu adoro esses almoos na sua casa a famlia TODA reunida aos domingos! 

Ao meu pai, Jos Luiz. Minha histria continua sendo influenciada pela sua, pelos ditos e lidos que me encantavam a infncia. Encontrei o significado de Ptria. At um dia, no cu. 

Aos meus filhos, Diego e Talita, porque ao crescerem e irem 

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me revelando como so, empolgam-me demais, e provam que a vida  assim mesmo, vocs crescem de um lado, eu creso de outro, Albertinho de um outro ainda e, dessa confuso de crescres que se entrelaam, alimento-me e, nutrida da paixo que existe entre ns, caminho, livre para olhar para trs e para frente, e entendo que me dizem para continuar. E se dizem exatamente o contrrio? E se lamentam meu tempo fora de casa? O bolo que nunca fiz aos domingos? Desculpem, no os ouo. Terei de ouvir? V-los virando adultos  a experincia mais profunda de TODA esta existncia. Obrigada a Deus pela graa de t-los concebido, gerado e educado. 
A voc, Diego, agradeo o sentir acelerado do meu corao ao v-lo passar para o curso de jornalismo da mesma faculdade que me formou, h 20 anos, a Escola de Comunicao da UFRJ, na qual tambm seu av deu aula de Cultura Brasileira na dcada de 70.Jamais saberei o quanto eu o influenciei na deciso de ser jornalista, mas permita-me pensar que sim, que o influenciei muito, que os psicanalistas pensem o que pensarem. Prazer maior foi v-lo fazendo a reviso deste livro, trabalho duro que abraou com rigor para os seus 17 anos. Melhor foi v-lo discordando de mim, do meu estilo, deixando bilhetes, do tipo: Me, olha s o que voc escreveu! E ainda quer ser levada a srio!. Coisa linda da mame! 
A voc, Talita, minha amada leoazinha, que se mostra como , como pensa, como planeja seu futuro, para que eu no tenha dvidas, para que ningum tenha dvidas, para que a amemos cada vez mais, incondicionalmente, exatamente como , na sua busca de encontrar limites, na sua sensibilidade privilegiada que servir  humanidade e a voc mesma como uma ddiva rara. Voc sabe, Tat, ter uma filha era meu sonho desde pequena. Uma menina como voc. Atriz ou advogada? Atriz e advogada. Seus sonhos so nossos sonhos. 
Ao meu marido, Albertinho, que se perdeu posio no ranking dos pargrafos que ordenam os agradecimentos, no pra de 
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ganhar pontos na minha alma. Mas ele mesmo diz que o que importa  o balano final. O que eu acho? Penso que nosso casamento superou a crise de mais um livro. Como sei? Pela dedicatria que ele fez ao terminar de ler o Sociedade inclusiva. Quem cabe no seu TODOS?:(...)beijos do TODINHO seu, Alberto. Agradeo-lhe por estarmos juntos h 20 anos, sabendo que mar-de-rosas no existe, e que se buscamos um prazer maior ele vem do nosso jeito original de levar a vida. E de peit-la. E se doer? Ora, doeu. 
Aos meus sogros, Alberto e Nina, pelas diversas e sempre intensas maneiras que encontram de me acudir. 
A. tia Nilza, querida, rebelde e brejeira tia, pelo jeito de se doar ao meu trabalho, fazendo de TUDO um pouco. Jamais esquecerei
. 
A. ngela, cunhada meiga-brava, forte-gentil, amiga-crtica, corajosa como ningum. Sempre, obrigada. 
Ao amigo insupervel, Elias Nachef, que nem por um segundo, por um milsimo de segundo, deixa de torcer por mim, Renaso com sua amizade. 
A. Simone Intrator que, posso dizer, vi crescer como jornalista e que prova, com sua competncia, cuidado meticuloso e interesse, ao atender minhas solicitaes para fazer a reviso final de cada um de meus livros, o quanto  prazeroso constatar que os filhos e os estagirios devem se tornar melhor que ns. Orgulho-me, sempre, da profissional premiada e reconhecida que voc j . E da amizade que construmos. 
Ao Macedo, Macedo, Carlos Macedo, o mais fantstico e criativo de TODOS os jornalistas filsofos ou filsofos jornalistas, meio misterioso tambm, que me acudiu no SOS do telefonema daquela noite: Macedo, estou desesperada, me ajuda no ttulo, voc que  o rei dos ttulos. Resposta: Amanh 
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cedo estou a. Como  bom ter amigos assim. Beijos  nossa Vernica. 
 Carla Reis, com quem dividi cada angstia deste novo livro, que no teria sado sem sua habilidade, eficcia, versatilidade e espirituosidade. Uma coisa  ser eficiente, e chato. Outra,  ser eficiente e resplandecer de tanto senso de humor. Sorte minha tla ao meu lado neste momento. Muito obrigada. 
 Cristina Barczinski, por sua amizade certeira, infalvel e imbatvel. 
 equipe do projeto Muito prazer, eu existo e da WVA Editora, especialmente ao jovem e talentoso Fernando Rangel. Boa sorte no exrcito! 
 Eliene, dulcssima Eliene, cujos olhinhos verdes continuam iluminando o dia a dia da minha casa. 
Aos meus amigos da Andi, sempre solcitos, prontos, hbeis, profissionais, como se o mundo TODO fosse isso, um caldeiro de cidados inteligentes e ntegros, dispostos a colaborar. 
Especificamente, s trs pessoas que mais tm me feito refletir sobre incluso: Maria Teresa Eglr Mantoan, Romeu Kazumi Sassaki e Stella de Orleans e Bragana. Stella, amiga e principal interlocutora dos ltimos tempos. Juntas, acabamos de fundar o Instituto Pr-Sociedade Inclusiva, do qual ela  presidente, uma ONG cuja misso  contribuir para a implementao de uma sociedade inclusiva brasileira atravs da estratgia da democratizao de escolas inclusivas por TODO o territrio nacional. 
A TODOS que contriburam para o resultado final deste trabalho, encontrando respostas, incentivando-me, fornecendo idias, informaes, dando pistas, colaborando de tantos jei 
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 tos: 0 professor Clio da Cunha, da Unesco; aos jornalistas Marco Tlio Alencar e Isadora de Afrodite, da Andi;  jornalista Raquel Mello, do Unicef; ao jornalista Luciano Milhomem, da Unesco;  jornalista Andra Bonfim, da OIT;  professora Maria Lcia Cardoso Vasconcelos, da UFRJ; a Marcio Schiavo e Elisio Moreira, da Comunicarte; s publicitria Fernanda Gomes de Arajo e Zil Ribas, da McCann-Erickson e  relaes pblicas Evelyse Carvalho Vidal, do MEC. 
Aos profissionais-amigos de diversas reas que colocaram  disposio seus conhecimentos. Poucas experincias so to inclusivas quanto o processo de leitura crtica e de reviso de um livro. Nele, realmente, cada pessoa contribui com seu talento para a construo do bem-comum. Se 10 especialistas o lerem, cada um trar sugestes pertinentes sobre detalhes que passaram despercebidos s outras nove. Quanto aos erros de portugus e de digitao, tambm  curioso e (at preocupante) notar como cada vez que o texto  lido novos equvocos so reparados. 
Muitas e valiosas foram as contribuies, crticas e sugestes recebidas. Como nem TODAS acatei, por uma razo ou por outra, esclareo que  de minha TOTAL responsabilidade esta ou aquela falha. Obrigada a Cristina Barczinski (psicloga), Erika Franzisca Werneck (Jornalista), Paulo Augusto Khler administrador, Romeu Kazumi Sassaki (assistente social), Ruy do Amaral Pupo Filho (pediatra e sanitarista), Stella de Orleans e Bragana arquiteta, Veet Vivarta (Jornalista) e Vera Marina Martins (professora). 
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Dedico este livro a ti, aos filhos de ti, a TODOS, aos filhos de TODOS,  Terra, aos filhos da Terra, a Deus, aos filhos de Deus


Para que TODOS 
sejam um, como tu,  pai, o s em mIm, e eu em ti; que tambm eles sejam um em ns para que o mundo creia que tu me enviaste 
So Joo, 17, v. 21 Novo Testamento 

Sumrio 

Obrigada p.5    Resoluo 45/91 p.19   TODA ateno p.21   Para TODOS. TODOS, mesmo p.23 TUDO no sero flores p.29 Esse TODOS voc conhece! p.33  Ora,  o TODOS de cada dia p.35 Captulo 1 p.39  Social: um TODOS que comove Teste seu TODOS p.51 
Captulo 2 p.55  TODOS em cima do muro 
Captulo 3 p.63  Incluir a parte no TODOS 
Captulo 4 p.69  TODOSpe1a Sociedade humana barasileira 

pgina 15 



Captulo 5 
Meu TODOS, qual  a sua? p.87
Estratgia I: Cultura Indgena p.95
Estratgia 2: Desenvolvimento sustentvel p.117
Estratgia 3: Direito das mulheres p.123
Estratgia 4: Protagonismo juvenil p.137
A estratgia-me 

Captulo 6 

TODOS devem a TODOS, na dvida social brasileira. p.143

Captulo 7 
Nem TODO o bem com a escola regular, Nem TODO o mal com a especial p.153

Captulo 8 

Desperdcio TODO dia? Sem trabalho no futuro? p.165

Captulo 9 
O caos  para TODOS p.175

Captulo 10 
Escola, bem de TODOS p.181

captulo 11  p.187
TODAS as leis da sociedade inclusiva
Primeira lei:Deao e inteno  p.191
Segunda lei: De estar em minoria  p.193
Terceira lei: Da incondicionalidade  p.195

Captulo 12
Cultura : o melhor de cada TODOS p.201
Para no errar em TODOS, de novo p.211

TODA a felicidades do mundo nos 
prximos anos de vida! p.219

O TODOS de Salamanca no 
o TODOS de Jomtien p.223

Com TODA sinceridade p.225

Ttulos TODOS p.227

Bibliografia p.229




Pessoas no familiarizadas com o conceito de sociedade inclusiva podero ler, inicialmente, o captulo 11. 

A palavra TODOS - e suas variaes - estar sempre escrita em caixa alta no texto desse livro, mesmo na reproduo de partes de textos e de documentos. A iniciativa e a responsabilidade so da autora. 

p.17 




Resoluo 45/91 (aprovada em 14/12/90) Organizao das Naes Unidas - ONU 
"A Assemblia Geral solicita ao Secretrio-Geral uma mudana no foco do programa das Naes Unidas sobre deficincia passando da conscientizao para a ao, com o propsito de se concluir com xito uma sociedade para TODOS por volta do ano 2010". 



TODA ateno 
Alerto que defendo e persigo ferozmente o uso da palavra incluso em seu contexto histrico e nada, nada semntico. 
Nem adianta procurar no dicionrio ... 
Incluso no  sinnimo de integrao. 
Incluir pressupe insero incondicional. 
Integrar? Depende de algumas condies, das possibilidades de cada pessoa. Como proposta,  cheia de ss. 
A incluso exige rupturas. 
A integrao? Pede concesses. 
Ambos os conceitos esto registrados em documentos nacionais e internacionais. 
Tem gerado muita polmica, no Brasil e no mundo. 
Esto inseridos em ideologias sustentadas pelo valor da diversidade humana. 
Representam crenas diferentes. 
Merecem ser estudados com rigor. 

 
Para TODOS. 
TODOS, mesmo 
Este livro foi planejado para ser um. No meio do caminho,virou dois. Sua continuao, O TODOS de Salamanca no  o TODOS de Jomtien ser lanado at dezembro de 1999. 
Assim amplio meu trabalho de jornalista especializada em temas que favoream a incluso de crianas, jovens e adultos com deficiencias e doenas crnicas na sociedade, iniciado em 1992. 
Lembrando que para atingir este objetivo no preciso necessariamente restringir minhas pesquisas a ele. 
No basta um pouco de tica, uma pitada de cidadania, toques de cumplicidade, um qu de direitos humanos. Sempre que discutirmos estes assuntos s ltimas conseqncias estaremos colaborando para resolver a principal questo: inserir pessoas com deficincia no TODOS social, incondicionalmente . 
Se cabe aos jornalistas democratizar discusses, promover investigaes e fiscalizar aes no mbito das polticas pblicas, sigo  risca tal provocao. 
Por isso escrevi o Sociedade inclusiva. Quem cabe no seu TODOS? 
O objetivo deste livro  discutir o uso leviano da palavra TODOS, especifcamente no Brasil. 
Que condies humanas cabem no TODOS social brasileiro? 

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E a mdia? 
Vem lutando para que TODOS os grupos vulnerveis exeram a cidadania? 
Deslizes de qual TODOS a imprensa est habituada a denunciar? 
E as organizaes governamentais, no-governamentais e particulares? 
Dispostas a resgatar a dignidade de TODAS as crianas e de TODOS os adolescentes que vivem em situao de risco social em nosso pas? 
Preocupam-se com TODOS esses jovens? 
Com TODOS? Com TODOS, mesmo? 
Ou apenas com aqueles que ameaam a sociedade? 
Sou a favor de que a mdia atue como estrategista em um contexto de articulao tica e poltica. 
Caso contrrio, poder apenas ser uma forma interessante e til do exerccio de algumas profisses na rea da comunicao. 
Mas ainda no  mdia. 
Parece-me bvio. 
A atuao de uma imprensa vinculada aos interesses de TODOS os grupos sociais da nao est garantida pela Constituio Federal de 5 de outubro de 1988. 
 a dimenso participativa da democracia brasileira. 
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Na sociedade inclusiva.Quem cabe no seu TODOS? defendo que o direito  igualdade social s ser garantido a alguns cidados ,com o reconhecimento e a valorizao de suas diferenas. Diferente de usar as diferenas, sabe-se l com quais intenes ... 
Para incluir  preciso reconhecer. 
Um dia escola ser s escola. Nem especial, integradora ou inclusiva. Sociedade? Sociedade. E ponto. 
Trabalho apenas trabalho. 
Estaremos dispensando adjetivos. 
Por enquanto, no pulemos etapas. 
Para incluir  preciso reconhecer. Ainda. 
O mundo est repleto de TODOS parciais que precisam ser ampliados. 
Dar visibilidade s diferenas  uma tendncia deste fim de sculo. 
Est expressa em livros e artigos de vrios autores. 
Estes estudiosos solicitam ateno s desigualdades sociais, s ,diferenas de gnero, e tambm s raciais, s disparidades regionais, s opes sexuais, s diversidades tnicas, culturais etc. 
Na Sociedade inclusiva. Quem cabe no seu TODOS? o tema  a diversidade humana, precisamente a deficincia, real ou ... virtual.Como dizia o teatrlogo Luigi Pirandello em uma de suas peas, "assim  se lhe parece". 
A deficincia  um tpico ainda bastardo. 
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Nem mesmo nas discusses citadas acima tem sido levado em conta transversalmente. 
Pois muitas pessoas no Brasil trabalham para ajudar a reverter tamanha excluso. 
Neste livro, compartilho certezas e angstias ao acompanhar os debates sobre incluso no Brasil. 
Maior entrave ao avano dessas discusses? 
o uso multifacetado da palavra TODOS na cultura, na mdia, nas universidades, no dia a dia de TODOS ns, tambm na fala dos governantes, dos que legislam, nos documentos etc. 
Estamos cercados de TODOS TOTALmente distintos entre si. 
De que TODOS estamos falando agora? 
Pare e reflita sobre o seu TODOS. 
Quem est nele? 
Ou quem apenas se ajeita nele? 
Como agir para que TODOS sejam um TODOS, somente? 
Um TUDO sem excees! 
 o que prope a sociedade inclusiva, movimento internacional criado e sustentado por pais e profissionais nas ltimas dcadas do sculo 20. 
Em 1990, o ideal de uma sociedade inclusiva foi documentado pela ONU atravs da Resoluo 45/91, assinada durante a Assemblia Geral das Naes Unidas. 
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Esta resoluo defende a implementao de uma sociedade para TODOS at o ano de 2010. 
Bem, obrigada pelo interesse. 
Que este livro lhe promova o caos! 
Traga dvidas e incertezas, doses de ansiedade, construa e , desconstrua hipteses, pois a reside a base do pensamento cientfico do novo sculo. Um sculo cansado de verdades, mas ,sedento de caminhos. 
O Sociedade inclusiva, Quem cabe no seu TODOS? ser til para esclarecer essas e outras dvidas que surgem quando o assunto , incluso. 
Incluso social? 
 pouco. Pouqussimo. 
Falo de incluir, intrinsicamente: 
No reino animal, 
No ramo vertebrados,
Na classe mamferos, 
No gnero Homo, 
Da sapiens espcie. 
A nossa. 
 nossa!!! 
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TUDO no sero flores 

Buscar o mundo inclusivo significa enfrentar desafios permanentes 
 
Nosso empenho em conquistar para a espcie humana a convivncia harmoniosa do TODOS que rene as cores do arco -res no dever ser guiado pela esperana de, no final do caminho encontrarmos um pote de ouro. 
Novos e inusitados desafios nos aguardam. 
Os do momento, eu resumo assim: 
1) Utilizar a diversidade humana e, especificamente, a deficincia, como estratgia catalizadora de avano e de justia sociais; e promotora, como um m, da formao de redes de pessoas, profissionais, conselhos, entidades no-governamentais e governamentais que, juntos, articularo a construo de um mundo inclusivo. 
2) Inserir o tema da incluso de pessoas com deficincia na sociedade, visto como de interesse restrito da famlia, ou como problema da famlia, em um universo maior, o da dvida social brasileira. Isto no mbito da sade, do trabalho, da educao, da comunicao, da cultura, do esporte, da arquitetura etc. 
Que dvida  essa? Exatamente a diferena entre o que a sociedade oferece e o que deveria oferecer aos seus cidados. E como divda social no se paga com dinheiro, com qual moeda vamos saldar esse dbito milenar? 
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3) Provar que pessoas com deficincia so geradoras de capital social. E, portanto (eis a resposta da pergunta anterior!), podem ajudar a saldar a dvida que a sociedade tem com elas. Capital social: essa  a moeda. 

4) Traar e seguir planejamento estratgico capaz de fazer com que as comunidades, quaisquer comunidades, sintam necessidade de caminhar no sentido de uma sociedade inclusiva, conscientizando-se de que precisam dela, motivando-se ento a agir para participar do movimento . 

5) Incluir transversalmente o aspecto da diversidade humana no TODOS da pluralidade cultural brasileira. Lembrando aos estudiosos da rea que a existncia humana, assim como a arte, encontra vrias formas de desabrochar, valorizando sempre a heterogeneidade. 

Nesse contexto, vem surgindo um novo tipo de direito, o cultural, para garantir que os cidados mantenham e satisfaam a diversidade e as necessidades de seus modos de vida. Os direitos culturais so parte dos direitos humanos: TODAS as pessoas devem participar plenamente da vida cultural de suas comunidades. 

6) Convencer a mdia a sair na frente, no papel de abre-alas para TODAS as transformaes propostas pelo mundo inclusivo. Deficincia  assunto de interesse pblico, sim. 

7) Reivindicar para a escola brasileira o direito de ser um bem pblico o que ela ainda no , priorizando a formao de parcerias ticas entre crianas e adolescentes, num contexto que reproduza a humanidade e no a sociedade como ela . Sem bens pblicos uma sociedade no consegue se transformar. 

8) Provocar o entendimento de que a incluso no , definitivamente, uma forma generosa de resolver o problema da segregao dos estudantes com deficincia que hoje esto na es 

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cola especial. A escola inclusiva  a sada para a crise do sistema do ensino brasileiro. Tanto a escola especial quanto a escola regular geram segregao e competio. Ambas tm sido incompetentes por insistirem em educar seus alunos em um contexto-farsa.

9) Divulgar os conceitos compatveis com a escola inclusiva: local onde as geraes se encontram, se entendem e se reconhecem como parte de um TODOS indivisvel, desenvolvendo juntos a tcnica, a intuio, a sensibilidade, a criatividade, a flexibilidade e a arte de formar, entre si, parcerias indispensveis ao futuro da nao. Essa escola  o bero do exerccio amplo da cidadania, vivncia que nos ensina a agir para as leis sarem do papel. 

Nessa escola, as dificuldades e as limitaes (reais e temporrias - ou no) de cada estudante, funcionam como estmulo para o enfrentamento dos desafios da vida comunitria, que transcendem o contedo e os demais ensinamentos que as salas de aula mal conseguem proporcionar aos alunos. 

Uma proposta pedaggica excludente, baseada em conceitos rgidos, incentiva outras formas de excluso, sendo a violncia fsica e o  desejo de machucar e eliminar o colega sua mais profunda manifestao. 

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Esse TODOS voc conhece! 

Na ultima decada do sculo 20, milhares de crianas foram mortas em Serra Leoa, na frica. Ou ficaram com deficincias. Aproximadamente 10 mil esto separadas de suas famlias. Outras tantas se tornaram rfs. 
TODOS esses  fatos so conseqncia de uma guerra civil que oficialmente durou sete anos. Em 1986, o Governo de Uganda assumiu o poder em Serra Leoa, mas vrios grupos continuaram a lutar. 
A populao daquele pas enfrenta dificuldades serissimas. 
Serra Leoa tem o menor ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta. Este clculo leva em conta renda per capita, expectativa de vida da populao, acesso  educao, a servios de sade e a saneamento bsico. 
A taxa de mortalidade de menores de 5 anos naquele pas, segundo o Fundo das Naes Unidas da Infncia (Unicef),  a segunda maior conhecida. S perde para Nger, outro pas africano. Em Serra Leoa, a cada mil bebs nascidos vivos, a probabilidade  de que 316 morram antes de completar o primeiro ano de vida. Trinta por cento das crianas esto com desnutrio aguda. Esses dados so de 1997. 
Pssivelmente, de 1986 a 1999, quase seis mil crianas e adolescentes foram raptados em Uganda por rebeldes de Serra Leoa. Meninas sofreram atentados sexuais e foram obrigadas a servir como esposa aos seus capturadores. Meninos tiveram 
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pouca opo na hora de escolher como participar do conflito: poderiam virar soldados, espies, cozinheiros, mensageiros, carregadores e, muitas vezes, bombas-suicidas, 
Ainda hoje, 1999, quando esses jovens conseguem ser libertados e chegam aos centros de recuperao, aconselhamento e reabilitao das vtimas da guerra, mantidos pela Viso Mundial da frica/ Uganda, uma organizao no-governamental (ONG), mostram sinais de trauma profundo. Tm pesadelos constantes, gritos  noite, irritabilidade, falta de concentrao, olhar vidrado. So crianas e adolescentes que talvez nunca se recuperem adequadamente. Precisaro de apoio constante pelo resto da vida. H ainda o agravante de que, enquanto o conflito no terminar de vez, eles podero ser raptados de novo. 
o que surpreende, amedronta e preocupa  que mesmo estando livres e sob tratamento h algum tempo, os jovens conservam os hbitos adquiridos no cativeiro. Locomovem-se em filas, do jeito que faziam na selva; agacham-se sempre, ao serem chamados; ficam em estado de alerta se ouvem palmas e assobios; falam muito baixo ou sussurram, como se estivessem com medo de serem ouvidos, e tm medo de barulho, principalmente de avies e helicpteros. 
Parte dessas informaes foram reproduzidas de artigos publicados na revista Viso Mundial-Transformao-maro 99-Ano XI-N 1. Outras foram fornecidas pelo Unicef. 
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Ora,  o TODOS de cada dia 


Natural que seja assim ... Desde muito pequenos,ainda crianas, habituamo-nos a administrar com certa competncia a incmoda sensao de estar em dbito com grupos que enfrentam dificuldades sociais extras. Pessoas que passam fome, no tm casa ou terra para plantar, sofrem privaes diversas, prejudicamse pela m distribuio de renda. 
Grupos tantas vezes reconhecidos como os das vitimas do sistema, 
Por isso  natural que seja assim. 
Que ser humano no se indigna com o relato sobre os traumas provocados em crianas e adolescentes pela guerra civil de Serra Leoa? E por outras guerras? 
Quem no se abala ao saber que, ao redor da Terra, mais da metade das 33 milhes de pessoas com o virus da imunodeficincia humana (HIV) o adquiriram antes dos 25 anos? 
E que, diariamente, mais de 8.500 crianas e adolescentes so infectados por esse mesmo vrus? Isso significa dizer que, no mundo, a cada minuto, seis-jovens se tornam soropositivos. Segundo informaes do Programa Conjunto das Naes Unidas para a Aids (Unaids), esses fatos esto relacionados  cultultura machista. Ou seja, os rapazes ainda so incentivados a provar sua virilidade por meio de relaes sexuais precoces e frequentes, com parceiras diversas, situao para a qual no es 
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to preparados. Enquanto isso, as garotas tm de ceder s presses masculinas, acreditar em fidelidade absoluta e no transar de camisinha para prender o namorado que ao ver um preservativo na bolsa da menina, logo imagina que ela no seja confivel. .. . 

Como ignorar dados do Ministrio da Sade constatando que 67 de crianas e jovens brasileiros de 9 a 18 anos fazem uso constante de bebidas alcolicas, sendo que 15 deles j se tornaram dependentes da droga? Quase 10% comearam a beber dentro de casa. 

E que o Brasil ocupa o quinto lugar entre os pases onde mais morrem jovens de 15 a 24 anos devido a causas violentas? Terceiro lugar quando a morte  por homicdio 21,7% do TOTAL de bitos. Nesta ltima categoria, ficamos atrs apenas da Colmbia e da Venezuela. No ranking interno, Vitria, Recife, Rio de Janeiro, Aracaju e So Paulo so, por ordem, as capitais mais perigosas para os jovens. Estas posies foram obtidas na pesquisa Mapa da Violncia: Os jovens no Brasil, realizada pela Unesco em parceria com o Instituto Ayrton Senna. O estudo foi feito com dados dos arquivos do Ministrio da Sade referentes  mortalidade no pas entre 1979 e 1996. 

Qual brasileiro no se preocupa ao ser informado que no municpio de So Jos da Tapera, em Alagoas, 70,55% da populao so analfabetos? L, onde a renda per capita  de R$ 5,00, morrem 147 crianas a cada mil nascidas vivas. Os dados so da ONU 

E ao ser alertado sobre o retrato cruel da explorao do trabalho infantil no Nordeste brasileiro? Recentemente, o Ministrio do Trabalho e a Organizao Internacional do Trabalho (OIT) fizeram uma pesquisa com 618 crianas trabalhadoras de trs estados nordestinos: Alagoas, Rio de Grande do Norte e Sergipe. Elas so mirradas, sofrem de tonturas, dores no 

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corpo, tm problemas de viso, e trocam as horas em que estariam na escola por longas jornadas de trabalho nas lavouras de fumo e laranja, casas de farinha e tecelagem de redes. Apenas 1% dessas crianas tem a altura mnima para a idade. Muitas j sofreram acidentes trabalhando. A cultura do fumo  das mais nocivas. A meninada tem vmitos, nuseas e dor de cabea.  esperado. Em um dia de destalonagem de folhas de fumo, absorvem pelas mos, a nicotina de 50 cigarros. 

E finalmente, como nos sentimos ao tomar conhecimento de que mais de 50% das jovens brasileiras, sem escolarizao, entre 15 e 19 anos, j tm pelo menos um filho? E que o aborto est entre as cinco primeiras causas de morte entre adolescentes em nosso pas? E que o parto representa a primeira causa de internao de meninas no sistema pblico de sade? O nmero de jovens pacientes que passam pelos servios do Sistema nico de Sade (SUS) para corrigir seqelas de aborto mal feito est crescendo a cada ano. Adolescentes so responsveis, segundo o Ministrio da Sade, por pelo menos 25 abortos, em cada 110 feitos no Brasil. A maioria das interrupes de gestao ocorrem em clnicas clandestinas, com pssimas condies de higiene. 

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Captulo I 
Social: um TODOS que comove
 
As questes relacionadas  deficincia ainda no esto no TODOS do cotidiano da mdia porque ainda no fazem parte do TODOS do social, que exclui partes do TODO maior, a humanidade. 
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Que importante! 

Que mesmice ... 

Que ladainha .... 

o mundo  injusto . 

To desigual. 

Nele, poucas so as pessoas contempladas em seus direitos bsicos de sobrevivncia e de bem-estar. Como sentir-se seguro para caminhar  noite, na rua. Como ter certeza de receber atendimento mdico adequado em qualquer hospital pblico.
 
Outra necessidade, mais ntima, difcil de ser verbalizada, nem sempre tambm  preenchida: o desejo que TODO cidado tem de ser incondicionalmente assimilado pela sua sociedade. Comea com a famlia, a escola, a vizinhana, pequenas comunidades ... E depois? A ptria, o planeta, a galxia, qualquer TUDO.
 
Sentir-se parte do TODOS, do TUDO, que sensao calorosa. Quanto aconchego.
 
Melhor ainda se tal sensao inclui realizar-se profissionalmente de modo pleno: trabalhar em um ofcio que lhe permita sobreviver dele, ser til ao TODOS e, ao mesmo tempo, d sentido  prpria vida.
 
TODOS. Palavra usada generosamente e de um jeito bem descompromissado por a. 

E a expresso TODO mundo? Brincadeira .... A Terra  coabitada por aproximadamente 10 mil sociedades diferentes! Que se apertam em cerca de 200 pases! 
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Na prtica o TODOS da sociedade (ou do social) acaba sendo o TODOS que reflete as desigualdades sociais. 
Pobreza: fenmeno complexo. Engloba baixa renda, fome, sade precria, absurdas privaes. 

No Brasil a disparidade  enorme. Os 10% mais ricos da populao tm quase 29 vezes mais dinheiro que os 40% mais pobres. Nos Estados Unidos, cinco vezes. Em Bangladesh, sete. E gastamos cerca de R$ 13 bilhes ao ano em projetos sociais para compensar tamanha inadequao na distribuio de renda.
 
Essa quantia, segundo estudo desenvolvido em 1999 pela Fundao Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea),  quatro vezes o suficiente para erradicar a pobreza no Brasil, caso decidssemos atuar sobre a origem dela, e no sobre seus efeitos. 

Outro estudo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios (PNAD), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), trata de tema parecido, a mobilidade social. E conclui 63% dos brasileiros mudaram de posio nos ltimos 20 anos. A maioria ascendeu. Cerca de 50% dos que se mexeram na pirmide o fizeram para cima. Apenas 13%caram no ranking social. Mas muitos dos indivduos que subiram, subiram pouco. E poucos dos que subiram, subiram muito. 

Diferena de gnero, 

Discriminao racial,
 
Diversidade cultural, religiosa, tnica ou lingustica, 

Disparidade regional...

TODOS esses ds cabem no TODOS das desigualdades sociais. 
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Quem usa a palavra TODOS sem pensar nas mulheres? Nos sem-terra? Na raa negra? Naqueles que passam fome? Nas meninas que se prostituem?
 
Ah ... As desigualdades sociais ... 

Seduzem antroplogos, educadores, historiadores etc. 

Com certeza, tambm a mdia. 

Particularmente, os jornalistas, que elegeram o tema como um dos preferidos. Somos eficazes ao reproduzir os interesses, os desejos e as dificuldades de nossos leitores. E ainda os sentimentos de indignao da sociedade quando os direitos das grandes minorias so violados. Grandes minorias que nem sempre envolvem nmero to representativo de pessoas, mas que simbolizam um mal da nao. Na atualidade, o tema meninos e meninas em situao de rua  o smbolo internacional das mazelas brasileiras, mesmo que eles no sejam tantos quanto algumas entidades governamentais e no-governamentais, aqui e do exterior, afirmam existir. 

Paremos para refletir.
 
Com a diversidade humana, especificamente com as diferenas individuais, relacionadas  forma do corpo, aos seus movimentos, aos sentidos e ao intelecto, acontece o contrrio.
 
As chamadas deficincias ou anormalidades diversidade humana em ltima instncia no so vistas pela imprensa como assunto de interesse pblico. Raramente merecem destaque no dia-a-dia da mdia nacional.
 
Mas como, se  nesse contexto que o mundo se toma mais injusto ainda? De fato. A diversidade humana e a desigualdade social influenciam-se o tempo TODO. Se a misria potencializa as 
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dificuldades das famlias que tm filhos com deficincia (pela ausncia de atendimento mdico, teraputico e educacional de boa qualidade e gratuito em suas comunidades), a deficincia revela a pobreza na sua capacidade de destruir o ser humano como, talvez, nenhuma outra situao seja capaz de fazer. 

Ento, por no retratar com a ateno e o enfoque devidos as deficincias e as doenas crnicas - fsicas ou mentais -, o jornalista  mau no exerccio de sua profisso? 

No, apenas reflete uma sociedade preconceituosa e incapaz de perceber a deficincia como questo humana. O descoompromisso no  do jornalista, mas do homem, do cidado.
 
Um exemplo bem interessante  a pesquisa Fala Galera - Juventude, Violncia e Cidadania na Cidade do Rio de Janeiro, realizada em 1999, pela Unesco, em parceria com a Fundao Oswaldo Cruz (Fiocruz), apoio do Instituto Ayrton Senna e da Fundao Ford. Foram entrevistadas 1.686 pessoas, entre 1.220 jovens de 15 a 20 anos, 443 educadores e poucas famlias. O objetivo era obter respostas para a pergunta: "Que sentido os jovens cariocas, de diferentes faixas scio-econmicas, atribuem  juventude,  violncia e  cidadania, especialmente no meio escolar e social?"
 
Os pesquisadores obtiveram a opinio dos entrevistados sobre vrios temas relacionados ao preconceito e  discriminao, incluindo o quesito opo sexual e sexualidade, cujas respostas revelaram dificuldades da juventude carioca no relacionamento com travestis e prostitutas. Nas discusses em grupo, muitos garotos e garotas defenderam abertamente agresses fsicas aos homossexuais. Outros resultados apavoraram: muitos desses jovens no acharam grave incendiar mendigos.
 
Estudo quase completo. Faltou ouvir os jovens em relao  deficincia. 
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o assunto no foi destacado na pesquisa que aborda cidadania.
 
Esquecimento srio ... Porque ... 

"A indiferena em relao s necessidades e s dificuldades especficas das pessoas com deficincia  uma ameaa ao desenvolvimento cultural de uma nao."
 
Tal constatao foi transcrita do livro Nossa Diversidade Criadora, organizado por Javier Prez de Cullar e publicado em 1997 no Brasil. A obra reproduz o Relatrio da Comisso Mundial de Cultura e Desenvolvimento da Unesco. 

Declaraes como esta indicam que os organismos internacionais esto atentos  diferena entre ser deficiente em um pas desenvolvido e ser deficiente em outro de realidade social e econmica adversa. A prpria resoluo 45/91 da ONU, que explcita o conceito de sociedade para TODOS, solicita ao mundo particular ateno aos grupos vulnerveis das naes em desenvolvimento, incluindo a indivduos com qualquer tipo de comprometimento fisico, sensorial, motor ou mental. 

Continuemos.
 
Um sexto da humanidade  de analfabetos funcionais. No Brasil, eles chegam a 30% da populao e vivem na pobreza mais desesperadora, sade sistematicamente ameaada. So cada vez mais numerosos.
 
O analfabetismo funcional caracteriza jovens e adultos que, mesmo tendo freqentado a escola, no conseguem usar a leitura e a escrita no seu dia-a-dia. No mximo, desenham o nome. Em TODO o mundo, somam mais que a populao dos pases industrializados: Alemanha, Andorra, Austrlia, ustria, Blgica, Canad, Dinamarca, Eslovnia, Espanha, Estados Unidos, Finlndia, Frana, Grcia, Holanda, Irlanda, Isln 
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dia, Israel, Itlia, Japo, Liechtenstein, Luxemburgo, Malta, Mnaco, Noruega, Nova Zelndia, Portugal, Reino Unido, San Marino, Santa S, Sucia e Sua. 

So quase um bilho de pessoas incapazes de ler um livro, assinar seus nomes ou preencher formulrios. Desse total, dois teros so de mulheres, estima-se. Nos pases em desenvolvimento, mais de 130 milhes de crianas em idade escolar esto crescendo sem ter acesso  educao bsica. De cada trs, duas so meninas. Dentre os estudantes, muitos aprendem aqum de padres mnimos de qualidade descritos e ratificados em documentos internacionais. 

Esses dados esto no relatrio Situao Mundial da Infncia 1999, publicado anualmente pelo Unicef, e distribudo simultaneamente em vrios pases. 

O relatrio do Unicef enfatiza a importncia da educao para resolver graves problemas como o analfabetismo, a fome, a explorao do trabalho e a mortalidade infantis.
 
Estes indicadores, de relevncia social, adquirem valor maior quando (e se) estudados no mbito da sociedade brasileira que, alm de desigual, raramente assume compromissos com cidados que nasceram ou ficaram deficientes.
 
Segundo a Organizao Mundial de Sade (OMS), aproximadamente 80% das pessoas que no enxergam, no escutam, no andam, tm seu intelecto ou seu desenvolvimento. motor comprometidos vivem em pases em desenvolvimento. Provavelmente 98% delas esto totalmente negligenciadas, conclui a  OMS. Um tero  de crianas. 

Ningum deve se emocionar com esses dados. 

"A emoo at nos facilita a compreenso do mundo, mas no garante que nos empenhemos em transform-lo, documen 
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tou o senador Roberto Campos em um de seus artigos para o jornal O Globo, Rio deJaneiro. 

Aprendi que as lgrimas sentidas e at o respeito por quem tem algum tipo de deficincia ou de doena crnica no tm efeito transformador. 

No Brasil, os arrepios de emoo que nossas reportagens suscitam no tm sido suficientes para alavancar mudanas necessrias capazes de inserir a deficincia no rol das questes sociais brasileiras. 

Vamos imaginar. 

Sexta-feira  noite. 

Jornalistas conversam em uma mesa de bar. 

Algum relata a ltima notcia sobre o alto ndice de meninas que se prostituem pelo pas afora. A indignao  geral. Como brasileiros, TODOS se sentem pessoalmente atingidos. No importa se no tm parentes atuando na prostituio. A realidade envergonha. Alguns dos jornalistas esmurram a mesa, outros pedem mais um chope balanando a cabea com pesar. H quem comece a criticar a omisso vergonhosa dos governantes estaduais e municipais, da polcia, do ministrio pblico, dos polticos e do presidente da repblica com a real situao da infncia e da adolescncia no pas. 

Nesse clima de revolta, comoo, surgem pautas para as edies do jornal do dia e da semana seguintes. Muitas dessas reportagens sero merecidas candidatas a prmios nacionais e internacionais de jornalismo. 

Agora, imaginemos outra cena. As mesmas pessoas em situao quase idntica. 

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Sexta-feira  noite.
 
Jornalistas conversam em uma mesa de bar.
 
O assunto  diferente, provocado pelo fato de um grupo de pais de crianas com paralisia cerebral da cidade ter ido, naquele dia, ,redao, solicitar apoio do jornal. Disseram estar tentando fundar uma associao para que, juntos, obtenham mais sucesso na hora de  reivindicar, para seus filhos, direitos previstos na Constituio, entre eles o de freqentar uma escola regular. 

Qual a reao do grupo nessa hora? 

O tema indigna? 

Algum esmurra a mesa? 

Quem como brasileiro, fica revoltado, quase enojado com a notcia?

Ou mobilizado? Muitas vezes, mobilizado at sim. S que em nome daquelas famlias, por aquelas famlias. No em seu prprio nome,no em nome da Ptria, no em nome de TODOS. 

No  sutil a diferena? 

Diante de notcias sobre as dificuldades enfrentadas por crianas e jovens com qualquer tipo de deficincia, so comuns, tambm entre jornalistas, comentrios de uma outra natureza, no-poltica e no-social. Comentrios que no levam  articulao nem  mobilizao. So frases do tipo: 

"Nossa que tristeza, como esses pais devem sofrer". Ou: "Que dificuldade.J pensou? Se j est caro e difcil educar um filho comum...".

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No mbito da mdia, o assunto pode at gerar matrias convincentes, mas por solidariedade quelas famlias, no pela convico de que o profissional da imprensa deveria ter de que esse  um tema to dele, como cidado brasileiro, quanto outro qualquer. 

Repetindo: O jornalista  mau? 

No. 

TODOS os profissionais erram, s que quando erram raramente algum sabe ou v. A no ser que estes deslizes sejam denunciados por terceiros, na mdia. Acontece volta e meia com os erros mdicos. 

Ns, da imprensa, erramos na mesma medida que os outros profissionais. S que quando nos enganamos prejudicamos centenas, milhares, milhes de pessoas de uma s vez. E automaticamente nos autodenunciamos. O mundo acompanha a manifestao diria de nosso preconceito. Basta ler jornais, ouvir rdio, acompanhar noticirios na televiso. 

A mdia  o espelho das dificuldades sociais humanas. 

Por TUDO isso, informao deve detonar demanda de reflexes capaz de romper com paradigmas anteriores. 

 quando o jornalista assume seu papel de educador social. 

Regenera, transforma, recupera. 

Vira um agente da histria, fundamentalmente das histrias silenciosas. 

Assim, documenta a memria coletiva do processo da construo da cidadania de pessoas com deficincia em nosso pas.
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Memria coletiva, argumentam os historiadores, no  memria acadmica, mas o resultado de uma ou de mais histrias pessoais. Est no indivduo, marcada afetivamente, sobrevivendo alm dos acontecimentos, sendo documentada no ntimo de cada guerreiro na busca do seu ideal. 

S o jornalista-educador-social poder alimentar, no dia-a-dia, o historiador. 

E, simultaneamente, impedir que algumas histrias continuem sem registro ou se mantenham indevidamente,registradas, apenas sob a ptica acadmica.  o que vem acontecendo quando matrias sobre sndrome de Down so Publicadas nas editorias de sade mesmo quando o assunto , est sendo abordado sob o ngulo do trabalho, dos direitos Humanos ou da educao. Sndrome de Down no  doena. E quem nasce com essa alterao gentica no se sente doente. 

Est explicado: 

As questes relacionadas  deficincia ainda no esto no TODOS do cotidiano da mdia porque ainda no fazem parte do TODOS do social, que exclui partes do TODO maior a humanidade. 

Que ironia! 

Pois se nmero de indivduos com deficincia cresce sem parar! 

Pois se pessoas com comprometimentos diversos esto em TODAS as partes do mundo e em cada segmento das sociedades! 

Pois se as deficincias e as doenas crnicas (que podem levar a algum tipo de incapacidade), talvez sejam a caracterstica mais intrnseca e tpica da humanidade ... 

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E, logo, que surpreendente, da sociedade! 

Nada mais conseqente, portanto, que o TODOS do social reproduza o TODOS do humano. 

Um TODOS que  TUDO. 

Um TUDO que dever mudar a concepo de nao.
 
Teste seu TODOS 


Antes de continuar a ler este livro, marque com um X as minorias, reais ou virtuais, que fazem parte do seu TODOS social. 
( ) jornalistas, operadores de telemarketing( ) polticos( ), deficientes fisicos( )
( ) deficientes mentais, deficientes sensoriais( )deficientes motores, deficientes mltiplos( ) doentes mentais( ), antropfagos( ) imigrantes( ) refugiados( ) pernas-de-pau( ) seringueiros( ) caudilhos( ) homossexuais( )catadores de papel( ) empregadas domsticas( )vendedoras de acaraj( ) ciganos( ) nmades( ) gueixas ( )sanfoneiros( ) sem-terra( ) ex-presidentes( ) palhaos de circo( )Presidirios( ) filhos de presidirios ( ) mendigos( ) filhas de presidirias( ) hermafroditas( ) ndios( ) ndias( ) astros de Hollywood( ) prostitutas( ) assassinos( ) aposentados( ) negros( ) 

Resposta na prxima pgina. 
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Quem deixou de marcar pelo menos 
Um item deve rever o uso que faz da palavra
TODOS urgentemente! 
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Captulo 2 
TODOS em cima do muro
 
TODO profissional merece ser reeducado sob a perspectiva da incluso. Mas a mdia deve ter prioridade. Nossa capacidade de influenciar opinies  imensurvel. Somos mediadores de saberes, de diferentes saberes. 
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Informao para qu? 

Ler este livro para qu? 

Especializar-se para qu? 

De 1997 a 1999, o Brasil foi sacudido por mais de 200 eventos dedicados  discusso do tema incluso, principalmente na rea da escola e do trabalho. Pais, estudantes, profissionais, instituies governamentais, no-governamentais e privadas se aliaram assumindo o desafio de tentar implementar uma sociedade inclusiva em nosso pas.
 
H quem venha resistindo a esse apelo histrico.
 
Por uma razo ou por outra, so cidados que no desejam compartilhar as emoes-boas e ms- de construirmos, juntos, um mundo para TUDO. 

Prefiro assim. 

Nada mais saudvel do que ter um interlocutor objetivo e capaz de dizer com tranqilidade: no. 

So pessoas que assumem seu desinteresse e seu descompromisso, pelo menos naquele instante. 
TUDO indica, que se questionadas sobre sociedade inclusiva, evitaro dar opinies mais detalhadas sobre uma matria que no conhecem bem. Eu, ao ter o primeiro contato com o conceito de incluso escolar, em 1993, nos Estados Unidos, durante a V Conferncia Internacional sobre Sndrome de Down, organizada pela National Down Syndrome Society, no me envolvi com ele. S anos mais tarde me deixei tocar. 

A falta de informao, quando assumida,  um instrumento eficaz para fazer a democracia funcionar. 
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No estar informado d tanto poder quanto estar bem informado. Poder de se omitir. 

O que atrapalha as discusses sobre como devemos agir na prtica de um dia a dia inclusivo  o fenmeno da subinformao, comunssimo.
 
Pessoas subinformadas pensam ter dados corretos e pareceres atualizados sobre determinado assunto e, em nome desse deslize ideolgico, entortam discusses, esvaziam propostas, cansam platias, adiam revolues. E sociedade inclusiva pressupe revoluo. Trata-se de uma proposta poltica que pretende alterar a estrutura constitucional do Estado. Do estado de fora e do estado de dentro. O estado interior de cada indivduo. 

Qual papel cabe ao jornalista nesse momento? 

Democratizar discusses sobre o conceito de sociedade inclusiva  de modo a nos tornarmos cada vez mais cmplices dele. 

No  o que vem acontecendo, ainda. 

Na maioria das matrias sobre sociedade inclusiva o jornalista pesquisa, entrevista, l, mas, na hora de escrever a reportagem... recua.
 
Acaba publicando uma excelente matria abordando a importncia da integrao (e no da incluso )de crianas, jovens e adultos com deficincia na sociedade. 

A principal diferena, repito,  que incluso pressupe o TODOS que  TUDO, enquanto integrao  uma proposta repleta de condies, de ss. D margem a que recuemos, por mais bem, intencionados que estejamos.
 
Vamos dar um exemplo de integrao e de incluso. Na escola! 
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Fato: uma instituio de ensino regular comea a ter alunos com deficincia mental nas salas de aula comum. 

O ttulo de uma matria integradora sobre a notcia possivelmente seria assim: 

"Escola acolhe crianas com deficincia". 

O que este ttulo pode dar a entender? Que a escola est recebendo aquele novo aluno com ateno.  animador?  positivo? Sim, com certeza. Ser transformador? Sim ou no. Com qual inteno a escola est abrindo as portas para o estudante? Sente-se boazinha por isso? 

Na direo de um mundo inclusivo, TODOS ns deveremos fiscalizar e apontar as possveis discrepncias entre a ao e a inteno das pessoas e das organizaes. 

E como seria o ttulo de uma reportagem sobre o mesmo fato feita por um jornalista que entendeu TUDO, TUDINHO sobre a amplitude do conceito de incluso?
 
"Escola brasileira evolui". 

Que diferena! 

Neste ltimo exemplo fica claro para o leitor que a presena de alunos com deficincia nas salas regulares faz parte de um novo projeto poltico-pedaggico dessa escola que ento se modifica no para, caridosamente muitas vezes, atender quela criana ou quele jovem. A instituio muda por saber que nos conceitos de escola e de sala de aula no cabem nenhum tipo de discriminao (voltaremos ao assunto adiante). 

A propsito, quem conhece a histria do comandante de certa caravela que, ao aportar com a tripulao em uma ilha para 
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enfrentar inimigos de seu rei, manda imediatamente colocar fogo em sua nau? Quando os marujos, indignados, pergunta1, por que o capito havia agido assim, ele explicou: 

"Se no temos como recuar, s nos resta a opo de ir em frente, enfrentar os obstculos, encontrar solues para eles e vencer!". 

 difcil mesmo escalar o muro do preconceito ( nele que aprendemos a subir desde criana) e, ao descer, pular para o outro lado, o lado do novo, do desconhecido, da informao que amedronta, e at parece piegas de to libertadora que .
 
Mas mesmo quando algum salta desse muro do preconceito pelo mesmo lado que subiu, desce uma pessoa diferente. 

Olhou a vista l de cima, comparou paisagens, analisou possibilidades, permitiu-se talvez sonhar. 

Um dia provavelmente salte para o lado oposto. 

Que saibamos esperar. 

Enquanto esse processo de humanizao do humano avana, ser preciso acessar e atualizar, sistematicamente, os jornalistas.
 
TODO profissional merece ser reeducado sob a perspectiva da incluso, mas a mdia deve ter prioridade. Nossa capacidade de influenciar opinies  imensurvel. Somos mediadores de saberes, de diferentes saberes. Devemos ser, como se diz, arautos das mudanas.
 
Minha sugesto  a seguinte, e para qualquer profissional, no importa a rea de atuao.
 
Antes de ir a um evento no qual se v discutir incluso, vale perguntar, em um exerccio de autoquestionamento: 
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"Eu quero informao para qu?" 

Caso seja apenas para dar uma espanada na poeira que volta e meia domina nossas idias e embota o raciocnio, no v. 

O tempo da subinformao tem que acabar. 

Porque h informao sobre incluso, isso h. 

Estejamos atentos: 

A expresso "falta informao" tem sido usada  como um libi (alis muito bem aceito) por quem, no ntimo, no deseja mesmo se envolver com algumas questes mais barulhentas e dolorosas. 

Opte por mergulhar no conceito de incluso dispondo-se a conhecer a regio abissal de sua alma, na qual reside TODA sua dificuldade em relao  deficincia. 

E a... Boa sorte! 

Informao de boa qualidade deve catapultar o receptor. Mas nunca se sabe para onde ... 

Informao no  fim,  meio. 

Estabelecer uma relao saudvel com ela significa depositar naquilo que nos foi dito credibilidade suficiente para imediatamente comear a question-la. 

Portanto, na sada de um congresso ou de um seminrio sobre sociedade inclusiva, esquea os arrepios, o choro e a comoo. 

Se diante da notcia de que o dlar e os juros bancrios subiram imediatamente tomamos providncias, faamos o mesmo 

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Ao constatarmos que a incluso no  apenas uma forma generosa de melhorar a vida das pessoas com deficincias. 

Mas sim a nica sada para os pases que se dispuserem a construir cidados para o terceiro milnio. 

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Captulo 3 

Incluir a parte no TODOS
 
Ningum descansa de suas deficincias. Nem de seus talentos.Isso prova que a sociedade no deve ter sequer a iluso de poder descansar tambm. 

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Captulo 3 

Incluir a parte no TODOS 

 Ningum descansa de suas deficincias.nem de seus talentos. Isso prova que a sociedade no deve ter sequer a iluso de poder descansar tambm.
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Algum tem de ser o guardio do significado real das palavras: semntico, histrico, figurativo, conceitual... 

Ns,jornalistas, deveramos estar aptos a essa tarefa, alertando sistematicamente sobre o uso indevido e desgastado de alguns conceitos.  o caminho de uma comunicao mais eficiente. 

Teremos de ser chatos, se vamos fiscalizar. 

Como  natural que adultos escrevam ou, pelo menos, falem, o oficio de quem vive e sobrevive de escrever e de falar s vezes  subestimado. O que se torna to natural para uns  o objeto de trabalho e de desenvolvimento profissional de outros. 

Retomando a idia de que  preciso revitalizar o cuidado com o qual escolhemos essa ou aquela palavra para expressar determinadas condies, cito o exemplo do artigo 227 da Constituio Federal. Graas  sua terminologia inovadora ele garantiu mudanas decisivas na proteo dos direitos da criana e do adolescente no pas. 

O Artigo diz: 

 dever da famlia, da sociedade e do Estado assegurar  criana e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito  vida,  sade,  educao,  cultura, ao lazer e  profissionalizao,  liberdade, ao respeito,  dignidade e  convivncia familiar e comunitria, alm de coloc-los a salvo de TODA forma de negligncia, discriminao, explorao, violncia, crueldade e opresso. 

Apenas a substituio da expresso menor (usada em documentos anteriores  Constituio), por outra, criana e adolescente, foi suficiente para ratificar e valorizar a condio humana dessas pessoas. Assim, a abordagem jurdica, na qual est inserido o conceito de menoridade, ficou automaticamente em segundo plano. 
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O artigo 227 difere do extinto Cdigo de Menores porque se baseia na Doutrina da Proteo Integral das Naes Unidas. Proteger integralmente  garantir a sobrevivncia, o desenvolvimento pessoal e social e a integridade fsica, psicolgica e moral de TODA a populao infanto-juvenil, sem excees (em tese). J o codigo assegurava apenas vigilncia para jovens em situao irregular ou seja, a abandonados, infratores, carentes etc. 

Agora,TODOS detm TODOS os direitos. 

A comparao acima est na apostila O N e a Rede-Articulao , como princpio Estruturador da Poltica de Proteo Integral  Criana e ao Adolescente, do professor Antonio Carlos Gomes da Costa, um dos articuladores do nosso Estatuto da Criana e do Adolescente. 

Ainda na opinio do professor Antonio Carlos, a adio, no artigo 227 da Constituio, da palavra direito, em vez de necessidade, revela mudana radical na abordagem da infncia. O menino ou a menina em situao de dificuldade pessoal e social j no  mais visto como portador de necessidades, mas como detentor de direitos exigveis. No que mais nossa constituio inovou? Soube comprometer explicitamente as , geraes adultas com seu teor. Isso foi obtido graas ao uso da palavra dever. Se  dever de uns, automaticamente torna-se ,direito de outros. No caso, os outros so os jovens brasileiros. 

Se a Constituio Brasileira foi to progressista ao abordar a questo da no-violao dos direitos humanos de crianas e adolescentes, substituindo velhos conceitos por novos, como seria produtivo se tal modernidade impregnasse tambm a terminologia adotada na rea da deficincia. Ou, de forma mais abrangente, a rea das necessidades especiais, que incluem, por exemplo, as altas habilidades, durante anos chamadas genericamente de superdotao. 

Poderamos comear revendo o uso da palavra portador. 
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No texto acima ficou claro que, ao elimin-la, nossa Constituio deu uma guinada de 180 graus no enfoque at ento utilizado para a populao infanto-juvenil brasileira sob risco social. 

H grande diferena em ser portador de uma necessidade, o que d a idia de fardo, de exceo, de excluso, de problema, de minoria .... 

E ser detentor de direitos, situao que engloba, insere, dignifica, divide responsabilidades. Inclui! 

Inclui a parte no TODOS! 

No contexto da deficincia, entretanto, a maioria dos profissionais e das autoridades, principalmente na rea da educao, por seguirem algumas diretrizes nacionais e internacionais, nem sempre to atuais, insistem em chamar pessoas com qualquer tipo de comprometimento mais visvel de portador de necessidades educativas especiais ou portador de necessidades especiais, ou portador de deficincia. Eu mesma, inicialmente, achava muito natural o uso desta palavra, que chegou a constar das primeiras edies de alguns dos meus livros. 

A polmica  interessante. 

Inclusive, segundo o assistente social Romeu Kazumi Sassaki, consultor de incluso e reabilitao, no caso de se usar a palavra portador, correto seria portador de necessidades educacionais e no educativas especiais. As respostas s necessidades educacionais  que seriam educativas. A explicao est em seu livro Incluso. Construindo uma sociedade para TODOS, lanado em 1997. 

O uso do termo portador lembra uma histria que me foi contada pelo jornalista e escritor Geraldinho Vieira, de Braslia, 
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Diretor-executivo da Agncia de Notcias dos Direitos da Infncia - Andi (ver prximo captulo).  mais ou menos assim: 

Dois irmos: um mais novo, quase adolescente, e outro, bem mais velho, andavam pelo deserto. O de mais idade, exaurido ,de tanto andar, no conseguia prosseguir. O caula pegou-o no colo- e, com grande dificuldades, foi carregandoo. At que , encontraram outro andarilho. Surpreso com a cena, ele exclamou, Como voc, to jovem, franzino, consegue caminhar , carregando esse fardo? O menino, surpreso, respondeu: Ele  meu irmo. Nunca ser um fardo!. 

O uso ou no-uso do vocbulo portador parece um detalhe bobo, insignificante, um exagero de retrica. Principal  a mudana de mentalidade, diro muitas pessoas. Sim, mas um processo est acoplado ao outro. Erro nosso  apart-los. 

Como profissional da rea de comunicao, ratifico mais uma vez o cuidado que devemos ter ao optar por uma palavra, pela, pela construo de cada frase, pois  atravs desses registros que se escreve a histria da humanidade, de preferncia dos avanos , da humanidade. 

Pessoas no carregam suas deficincias nas costas e, de vez em quando, descansam delas; para conseguir um trabalho mais bem remunerado ou freqentar uma escola regular, por exemplo. 

Nada disso. Pessoas existem com suas limitaes e possibilidades,em maior ou menor proporo, dependendo da relao que tm com o ambiente. 

Ningum descansa de suas deficincias. 

Nem de seus talentos. 

Isso prova que a sociedade no deve ter sequer a iluso de poder descansar tambm. 
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Captulo 4 

TODOS pela sociedade-humana-brasileira
TODA pessoa com deficincia  fonte de capital social. Um capital atrofiado, porque raramente tem sido usado. Mas que se multiplicar, a partir de estratgias definidas por movimentos em rede que uniro TODO o pas. Foi assim com os negros, as mulheres e, mais recentemente, com os jovens. 
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Quem muda primeiro: a sociedade ou a mdia? 

A mdia.

Se desejamos inserir a questo das deficincias e das doenas crnicas no rol dos problemas sociais brasileiros, ser preciso agir para ter, nos meios de comunicao, irredutveis aliados. 

Pais e profissionais no providenciam interveno precoce para bebs com algum tipo de comprometimento motor? 

Pois o jornalista-educador deveria providenciar estimulao social. Social e preventiva. 

Isso inclui acabar com essa histria ultrapassada de que a imprensa  livre, atua de forma neutra e no deve trabalhar partidariamente. 

Discordo. Nossa bandeira  poltica. Poltica no seu mais profundo significado: o exerccio da arte do convvio visando ao bem-estar comum. 

Quanto mais o jornalista renovar sua conscincia de ser parte de um TODOS, sendo esse TODOS a sociedade brasileira ou a Terra, mais livre, profissionalmente, ser. Livre para se comprometer com a busca desse TODO indivisvel de uma sociedade na qual realmente caibam TODOS e no apenas se ajeitem TODOS. 

Buscamos uma sociedade humana ou humanstica brasileira, porque o TODOS da sociedade brasileira  um TODOS tacanho, sem flexibilidade para atender aos interesses de um mundo inclusivo no que se refere  diversidade humana, s diferenas biolgicas individuais, s deficincias, s doenas crnicas etc.
 
Uma sociedade-humana-brasileira dever ter por base o homem. 
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E no partes do homem. E no alguns homens.

 limitado o papel articulador, mobilizador e transformador da mdia a servio da implementao de uma sociedade humana no Brasil. Ou de uma sociedade inclusiva no Brasil, como queiram. 

E a mdia sabe colaborar. A histria confirma .
 
Caso bem atual  o do trabalho desenvolvido em redes, macro e micro, no mundo, para mudar o olhar das naes em relao a juventude. 

Metas fundamentais tm sido alcanadas atravs de um processo de reeducao da mdia na abordagem dos temas infncia e adolescncia. 

A mdia, ento, se transforma em agente multiplicador de sua prpria capacitao!

Nenhuma outra gerao da histria humana foi to numerosa o jovem.
 
Coincidentemente, a ltima dcada do sculo 20 tem sido frtil na assinatura de pactos nacionais e internacionais dedicados  proteo dos direitos da criana e do adolescente, de TODO adolescente. 

Um deles  o nosso Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA)que, para alguns estudiosos, tem equvocos. Mas que tambm  uma das legislaes mais avanadas e elogiadas internacionalmente na rea. Embora esteja na lista das menos respeitadas tambm. Se o ECA fosse cumprido, 65% dos 20 mil adolescentes presos no Brasil por terem cometido crime contra o patrimnio (e no contra a pessoa) estariam cumprindo medidas scio-educativas, como a prestao de servios comunitrios. Ao contrrio, esto em regime de privao de liberdade, internados. 
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A discusso sobre as perdas e os ganhos trazidos pelo Estatuto (e pela dificuldade de implement-lo)  interminvel. Dela vem participando legisladores, juristas, promotores, conselheiros, professores, jornalistas, assistentes sociais, crianas e adolescentes por TODO o pas. Justia seja feita: o ECA, inserindo-se no bojo de um periodo caracterizado por srias decises da comunidade internacional em relao  criana e ao adolescente, dividiu a histria da menoridade no Brasil em antes e depois. 

O estopim de tantas mudanas foi dado em 20 de novembro de 1939, quando a Conveno Internacional dos Direitos da Criana foi promulgada pelas Naes Unidas, tornando-se lei internacional em 2 de setembro de 1990. 

Na Conveno ficou estabelecido que propiciar aos jovens qualidade de vida passaria a ser um direito garantido pela famlia, pelo Estado e pela sociedade, e no mais uma ddiva filantrpica ou assistencialista opcional. Nela j estava assinalado que o ensino deveria ser gratuito e compulsrio, pelo menos no grau primrio. 

O Brasil foi um dos primeiros pases a confirmar os princpios da Conveno, traduzidos no ECA. O Estatuto  a lei que d condies de exigibilidade para os direitos da criana e do adolescente, definidos no artigo 227 da Constituio Federal. 

Depois da assinatura da Conveno Internacional dos Direitos da Criana, no ratificada at hoje por apenas dois pases, os Estados Unidos e a Somlia, podemos dizer que o mundo redescobriu e ressignificou o ser criana e o ser jovem. 

Tanto que j em 1990, na Cpula Mundial pela Sobrevivncia e Desenvolvimento da Criana, realizada em Nova Iorque, foram definidas 27 metas relacionadas a condies de sade, educao, saneamento bsico e proteo a populaes infanto-juvenis. Alm do Brasil, mais 144 pases se comprometeram a cumprir essas metas at o final do sculo 20 . 
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Em 1991, no Brasil, rgos pblicos, associaes profissionais, sindicatos, partidos polticos, igrejas e demais setores organizados da sociedade uniram-se formalmente para assegurar  criana - sobretudo nas reas de educao, sade e combate  violncia - os direitos da infncia preconizados na Constituio Brasileira e estabelecidos pelas convenes internacionais das quais o Brasil  signatrio. Dessa unio resultou o Pacto pela Infncia e a instalao, em abril de 1993, do Conselho Nacional dos Direitos da Criana e do Adolescente (Conanda)
. 
Se o Pacto configurava novas metas em favor da infncia e da adolescncia, passava a ser urgente que o pas, de ponta a ponta  conhecesse tais diretrizes. Mais premente era a opinio pblica convencer-se da importncia delas.
 
Nessa hora, segundo o relatrio do Unicef A Infncia Brasileira dos anos 90, o apoio do Conselho Nacional de Propaganda, da Associao Nacional de Jornais e da Associao Brasileira das Emissoras de Rdio e de Televiso foi fundamental. Essa trplice aliana, recm-criada, alavancou mudanas de mentalidade. A sociedade deixava de ver a juventude apenas como futuro, promessa. A fala que melhor reproduz essa tomada de conscincia  a do socilogo Betinho: O jovem  o hoje, e no o amanh.

Tal rede informal, documenta o relatrio do Unicef, garantiu os recursos humanos, comerciais e tcnicos necessrios a uma ampla divulgao dos novos conceitos. Em curto espao de tempo a populao brasileira tomou conhecimento, assimilou e se familiarizou com propostas e terminologias inovadoras. Mais pessoas puderam, assim, dar sua contribuio. Canais importantes de divulgao foram os radialistas das regies Norte e Nordeste, a malha de comunicao da Pastoral da Criana e o programa Minuto pela Infncia, a cada dia inserido na Hora do Brasil e, portanto, obrigatoriamente transmitido pelas emissoras de rdio do territrio nacional. 
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Como havia necessidade de se cobrir o pas, sistematicamente, de ponta a ponta, dando nfase  imprensa regional, j que a descentralizao era um dos eixos principais do processo de mudana, alguns jornalistas se organizaram formalmente em redes. Foi quando surgiu a Agncia de Notcias dos Direitos da Infncia, a Andi. 

Em 1998 fui diplomada pela Andi e Fundao Abrinq pelos Direitos das Crianas com o ttulo de Jornalista Amigo da Criana, projeto coordenado pelo jornalista Marco Tlio, no que se refere ao trabalho da Andi. Outras entidades apiam a diplomao, como a Embratur, a Vasp, a McCann-Erickson e o Unicef. O patrocinador  a Sasse Seguros, da Caixa Econmica Federal. 

O prmio  um reconhecimento pelo trabalho jornalstico desenvolvido ao longo da carreira. Ao receb-lo, assumimos o compromisso de continuar defendendo causas que promovam a defesa dos direitos das crianas e dos adolescentes. 

A diplomao como Jornalista Amigo da Criana ainda refora a responsabilidade de trabalhar por uma mdia mais til  sociedade. 

A uma sociedade para TODOS. 

Um TODOS TOTAL; que a mdia ainda no conhece. 

Ser Jornalista Amiga da Criana significa levar, TODA semana, um pontap. No h desculpas para acomodao. Somos alimentados com TODO tipo de clippings, livros, dados fresquinhos, relatrios, sugestes de pauta, convites para cobrir ou participar de eventos importantes em muitas reas. O objetivo  alertar para a seleo dos critrios a serem utilizados na hora de ns, jornalistas, escrevermos sobre, e para, crianas e adolescentes. 
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Por intermdio da rede criada pela Andi temos, ainda, a facilidade de provocar, em dezenas de veculos do pas, de uma vez s, discusses que nos interessam. 

No meu caso, a incluso de jovens com deficincia na sociedade. 

Acessar a mdia neste sentido  um dos objetivos do projeto Muito prazer eu existo, criado em 1993, e pelo qual sou responsvel. 

Inicialmente o assunto no constava da relao de temas de relevncia social cuja freqncia e o enfoque na abordagem so analisados, semestralmente, pela Agncia, e publicados na Pesquisa Andi - Os Jovens na Mdia, coordenada por Veet Vivarta e Fernando Molina. 


Na primeira vez que o item deficincia foi verificado, em 1997,( at por sugesto do projeto Muito prazer, eu existo) ficou em ltimo lugar. Ou seja, era a questo menos prioritria nas matrias para crianas e adolescentes veiculadas na mdia jovem da poca. 

E hoje, como est? 

O tema deficincia continua na ltima posio. Na mais recente edio de Os Jovens na Mdia - perodo novembro de 1998 a abril de 1999 - mereceu apenas insignificantes quatro inseres, em um total de 557 edies de suplementos tablides e standards, pginas de jornais e revistas do Brasil. Destinados ao jovem, naturalmente. Foram analisados 25 veculos impressos por TODO o pas. Uma cobertura de 99,64% do universo de publicaes. 

Na pgina 58 da Pesquisa comea o captulo sobre Os Excludos, que evidencia a existncia de um grupo de temticas continuadamente ignoradas por essas publicaes. 

Sob o ttulo Desafios para a Mdia Jovem, est escrito: 
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As trs retrancas com pior colocao na atual Pesquisa - gravidez, meio ambiente e portadores de deficincia - j ocupavam as mesmas posies na edio anterior, a de maio a outubro de 1998. Agora apresentam um TOTAL de inseres ainda menor. Outras trs retrancas posicionadas logo acima - famlia, drogas e projetos sociais no s sofreram reduo similar, como pioraram sua classificao geral em relao aos seis meses anteriores. Esses seis temas so os excludos das pautas, embora sejam facilmente reconhecidos como de grande importncia. 

A pesquisa Os Jovens na Mdia traz um outro dado instigante. 

Pela primeira vez, desde 1997, o ndice de temticas socialmente relevantes ficou estagnado. Mas mesmo assim, segundo a Pesquisa da Andi, o quadro que emerge  favorvel. Avanamos, principalmente, se o assunto  cultura, protagonismo juvenil, direitos&justia, alm de educao. O comportamento da mdia jovem em relao  educao  curioso: 40% dos veculos simplesmente ignoraram o assunto em suas matrias, apesar de no cmputo geral ele estar consolidado. Outra informao importante: os temas sade e sexualidade do adolescente so os que mais mobilizam a mdia brasileira dedicada aos adolescentes no momento. 

Nas suas 94 pginas, este estudo - organizado e editado Com o apoio do Unicef e do Instituto de Pesquisa e Ao Modular (Ipam), alm do Instituto Ayrton Senna, da Unesco e do Ministrio da Sade - mostra que o jornalista brasileiro, entre idas e vindas, est assumindo, pouco a pouco, seu papel de co-responsvel pelo desenvolvimento biopsicossocial pleno, prazeroso, solidrio, independente e autnomo do jovem brasileiro. 

E isso no  mais visto como favor 

Nos ltimos anos, surgiram tambm veculos novos, dedicados ao adolescente; mais no sentido de propiciar-lhes vez e voz. 
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Muitos tm conselhos editoriais de jovens. Essa tambm foi uma das minhas preocupaes ao desenvolver, a partir de junho de 1997, o projeto editorial da revista Pais&Filhos Famlia, na .Editores, Rio de Janeiro, sob a direo do jornalista Roberto Barreira. Fui editora-executiva dessa revista, dedicada a pais de adolescentes e de pr-adolescentes, at seu fechamento em setembro de 1999, em funo de grave crise financeira que abalou a empresa, acompanhada pelo Brasil atravs de jornais, rdio, televiso. 

H igualmente mudanas no enfoque dado  adolescncia na mdia para adultos. 

Questes e solues trazidas pelos jovens j so vistas como assunto de preocupao nacional e no apenas como temas de interesse restrito do pai, da me, dos irmos, dos tios, de quem se relacionava com jovens no dia-a-dia. 

Pautas sobre drogas e abuso sexual, at h poucos anos espremidas nos cadernos e nas editorias de comportamento, de famlia e, no mximo, de educao, passaram a ser listadas e analisadas sob prismas diversos e abrangentes. 

Neste de 1999, com o objetivo de estimular ainda mais essa demanda, o Grande Prmio Ayrton Senna de Jornalismo est incluindo a categoria Mdia Teen na competio. Uma outra premiao foi lanada, pelo Unicef e pela Agncia de notcias EFE: Prmios Ibero-Americanos de Comunicao pelos Direitos da Infncia, outorgados a cada dois anos. Um dos objetivos destes prmios  reconhecer o trabalho de jornalistas e comunicadores sociais que promovam o respeito aos direitos de meninas e meninos. 

E,ento? Adolescente s gosta de rock? No, que mentira, que lorota boa. 
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Projetos editoriais de circulao dirigida que no entram na pesquisa da Andi provam que informao de alto nvel pode ser compatvel com o interesse dos jovens. Um deles  o Radcal, de Braslia, editado pela Fundao Athos Bulco. 

O jornal recebeu, em 1997, meno honrosa no Prmio Ita Unicef Educao e Participao. Seu projeto grfico, moderno e coloridssimo, foi classificado, em 1998, para participar do catlogo da 4a Bienal de design Grfico, em So Paulo.
 
Em entrevista  jornalista Mrcia Lisboa para a revista Pais e Filhos Famlia, em 1998, o jornalista Severino Francisco, editor do Radcal, definiu como principal objetivo do jornal democratizar a informao, estimular a conscincia das diferenas, seduzir para o prazer da leitura, promover a interao, provocar a reflexo, difundir uma moderna cultura de direitos humanos, revelar experincias positivas e estimuladoras do processo de mobilizao social, mostrando a diversidade cultural e tica do pas. 

O retorno deste projeto radical tem superado expectativas. Na pesquisa patrocinada pelo Unicef entre 402 estudantes, 97% afirmaram ler o Radcal habitualmente e 33% disseram que ele  leitura obrigatria. Os temas que mais interessam so sexualidade 44%, drogas 30% e msica 19%. O Radcal sai mensalmente durante o ano letivo e tem tiragem de cem mil exemplares. A distribuio  gratuita para estudantes da rede pblica do ensino mdio de Braslia. 

Iniciativas similares esto em TODO o pas, em cantos distantes das capitais. 

Em Santarm, no Estado do Par, o Projeto Sade e Alegria, com o apoio do subprojeto da Rede Mocoronga de Comunicao Popular, lanou o Jornal Intercomunitrio O Mocorongo. Essa rede  formada por jovens das comunidades de Suruac, 
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cont.p.79






Sa Domingos, Maguari,Jamaraqu, Acaratinga, Piquiatuba, Pedreira, Marituba, Tauari, Urucure, So Francisco, Cachoeira do Aru, Alto Aru, Aninduba e Santana do Ituqui. A rede Mocoronga capacita osjovens das comunidades para que se tornem agentes do resgate cultural da regio.
 
Pressionada, pressionada mesmo. Nos ltimos cinco anos a imprensa passou a denunciar com cada vez mais freqncia a desigualdade social e a diversidade cultural que caracterizam o pas. Jornalistas so incentivados por alguns segmentos organizados da sociedade civil a ir alm. 

Ir alm?
 
 que agora no basta relatar fatos desagradveis.
 
Tambm cabe  mdia participar da busca de solues para os problemas que apresenta ao seu leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. 

TODO profissional da rea de comunicao precisa assumir o compromisso de divulgar o que cada cidado ou comunidade est fazendo para combater injustias, de qualquer natureza, de forma espontnea ou organizada. 

Neste sentido, jornais de vrios cantos do pas esto se unindo, sob a coordenao da Agncia Estado, para produzir e intercambiar reportagens sobre as aes da sociedade em favor da educao e da cidadania.  a Rede Iniciativa. A idia permite aos jornais estarem atualizados sobre iniciativas comunitrias, particulares ou governamentais de regies distantes. E public-las. 

Muitas das aes comunitrias que se alastram pelo Brasil . realizadas em parceria com o terceiro setor, especialmente com as organizaes no-governamentais, e tm resultados  excelentes. Fazem parte de uma revoluo ainda 
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pouco barulhenta, mas j bastante eficaz, que promove e universaliza a cidadania. 

Cumplicidade, portanto. Esse  o novo paradigma da comunicao, bem definido recentemente pela Andi. 

Ufa! Finalmente, estar na adolescncia  um processo valorizado socialmente!
 
E gastos com a populao jovem deixaram de ser custo. Tornaram-se investimento.
 
Em uma sociedade capitalista, investimento  imediatamente associado a retorno financeiro e a futuro. 

Mas aqui falamos de um outro tipo de negcio.
 
Que ideologia sustenta esse negcio? 

A de que TODO o investimento da famlia, da escola e da comunidade no jovem deve ser analisado no mbito dos negcios sociais. E esse retorno  imediato. 

TODO jovem  fonte inesgotvel de capital social. 

Existem vrias definies de capital social.
 
Capital social  um conceito do marketing social.
 
E o que  marketing social? 

Com certeza, nada que lembre transpor mtodos e tcnicas do marketing comercial para a rea social. 

Mrcio Schiavo, diretor da Comunicarte Marketing Cultural e Social, e Miguel Fontes, presidente da John Snow do Brasil, ambos estudiosos do assunto, tm esta definio de marketing social: 
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"O termo  empregado para descrever o uso sistemtico dos pricpios e mtodos de marketing orientados para promover a aceitao de uma causa ou idia que levem um ou mais segmentos populacionais identificados como pblico alvo a mudanas comportamentais quanto  forma de sentir, perceber e agir sobre uma determinada questo, adotando a respeito novos conceitos e atitudes". 

E o que seria capital social, resumindo a opinio desses autores e de outros?
 
Recursos disponveis na comunidade capazes de contribuir para a transformao dos indivduos que dela dependem.
 
Agora, eu acrescento:
 
TODO jovem  fonte inesgotvel de capital social. Incluindo aqueles que nasceram, ficaram, esto ou simplesmente parecem deficientes. 

Este  o desafio criativo que os profissionais da mdia precisam enfrentar daqui por diante. 

Incluir, no TODOS da populao infanto-juvenil brasileira, crianas e adolescentes em desvantagem fisica, sensorial, motora ou intelectual.
 
Lembrando que essa desvantagem  relativa, causada por barreiras impostas pelo meio ambiente humano, ideolgico e fisico.
 
Ser menor quanto mais eficiente forem os meios de comunicao no desejo de derrubar essas barreiras. 

A caminho de um mundo inclusivo e de uma mdia para TODOS, a imprensa deve estabelecer, como responsabilidade sua provar  comunidade que pessoas com deficincia so geradoras de capital social. 
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* 
* 

 simples! 

Basta seguir a mesma estratgia utilizada em relao  adolescncia. 

No passado, tambm as mulheres e os negros no eram vistos como geradores de capital social. Nos dias atuais, so. 

ndios no votavam, por exemplo. 

At recentemente, jovens com menos de 18 anos, tambm no. 

E no se assuste o jornalista que se dispuser a dissecar o ECA sob a ptica das dificuldades enfrentadas pela juventude brasileira com algum tipo de deficincia ou de doena crnica. 

 de ficar pasmo. Ao constatar que, em pelo menos um item do artigo 227 da Constituio, esses jovens esto sendo particular e potencialmente lesados. De forma silenciosa ... Acontece quando o texto diz ser dever da famlia, da sociedade e do Estado colocar as crianas e os adolescentes "a salvo de TODA forma de negligncia, discriminao, explorao, violncia, crueldade e opresso". 

Isso significa "defend-los das situaes e das circunstncias que constiturem ameaas de violao de seus direitos. Seja por ao, seja por omisso", escrevem os analistas do ECA. 

Eu pergunto: 

Em que outro aspecto da humanidade a nao brasileira  to omissa quanto no que se refere  violao de direitos das pessoas com deficincia? 

O assunto nem chega a entrar na pauta para depois ser excludo. No final de 1998, fiz um curso de Capacitao em Marketing 
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Social pela Comunicarte e John Snow do Brasil, com o apoio da Universidade de Harvard. Nele, em determinado momento, cada organizao no-governamental deveria descrever seu perfil de atuao. Duas histrias sero inesquecveis. E ilustram essa nossa incrvel capacidade de abstrair a deficincia de nossas vidas. 

A primeira  referente a uma organizao muito atuante do Nordeste. Seu diretor, ao descrever o trabalho de profissionalizao desenvolvido com adolescentes, disse algo mais ou menos assim:"capacitamos TODO jovem, rico ou pobre, menino ou menina, que nos procurar". Eu provoquei: "Que beleza, parabns, ento vocs profissionalizam jovens com deficincia fsica, sensorial e mental tambm!". Ele recuou: "No, isso no, nunca pensamos nisso nem fomos procurados". Retruquei: " um direito de vocs no abrir os cursos para jovens com deficincia, mas ento devem evitar dizer que profissionalizam TODO adolescente. Tero que modificar o estatuto". 

O segundo exemplo  de outra ONG vinculada a uma universidade no Sudeste. Sua representante no curso disse que a instituio tinha uma biblioteca completssima sobre educao. Eu cutuquei: "Bom saber que vocs tm livros sobre educao espccial". Ela parou, refletiu por segundos e respondeu. "No, nossa biblioteca tem livros s de educao em geral". Respondi: "Ento, como educar  uma coisa s, ao definir sua biblioteca, o certo seria dizer que ela  completssima em educao, com exceo do que se refere  educao especial". 

Essas pessoas, representantes das organizaes citadas acima, so ms? 

No. 

Apenas cresceram acreditando que a deficincia era uma quarta dimenso da vida. Como a maioria de ns, alis, cresceu. Inclusive eu. 
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* 
Isto posto, sugiro construirmos uma rede bsica em prol da construo de uma sociedade para TODOS e para TUDO, em quaisquer instncias e locais: famlia-escola-comunidade-mdia. 

Essa rede estaria transversalmente apoiada pelo governo, pelas organizaes no-governamentais e privadas. E pela prpria mdia, suporte e apoio desse processo. Uma mdia capaz de promover o equilbrio entre os direitos e deveres dos meios de comunicao.
 
Seu maior desafio? 

Aprender a atuar dentro do conceito de sociedade inclusiva sem tropear nos limites de rotas estereotipadamente humanizantes ou desumanizantes, pois ambas abstraem, das pessoas com deficincia, sua singularidade. 

 baseada na singularidade e no reconhecimento das qualidades individuais e nos tipos de inteligncia que se dar a construo de um mundo inclusivo.
 
Nele, TODOS os cidados, de qualquer idade, sero capazes de contribuir com seus talentos para a construo do bem comum, dividindo papis e responsabilidades.
 
Fundamental: a cadncia das redes tem de ser dada pelo movimento das famlias de pessoas com deficincia e por elas prprias. Pais no so ansiosos. Tm  urgncia. Urgncia que vira emergncia. Foi a emergncia destas organizaes que influenciaram e vm influenciando positivamente os governos e os organismos internacionais na tomada de decises que nos levem a uma sociedade para TODOS, conforme texto da resoluo 45/91. 
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Essa urgncia tambm nos guiar na divulgao do seguinte paradigma: 

(Desculpe insistir, mas ...)

TODA pessoa com deficincia  fonte de capital social. Um capital atrofiado, porque raramente tem sido usado. Mas que se multiplicar, a partir de estratgias definidas por movimentos em rede que uniro TODO o pas. 

No TODOS da sociedade-humana-brasileira. 
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Captulo 5 
Meu TODOS, qual  a sua? 

O meu vis para chegarmos  sociedak inclusiva  a deficincia. H outras estratgias,como cultura indgena, desenvolvimento sustentvel, direito das mulheres e protagonismo juvenil. A principal diferena  que essas estratgias tm marketing, appeal, carisma, despertam curiosidade, seduzem. Deficincia no. 
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Temos o seguinte problema: 

Uma sociedade excludente no item diversidade humana. 

Mais excludente neste aspecto do que em qualquer outro. Concordam comigo? 

Sabemos qual  a sada para tamanho impasse: uma sociedade inclusiva. 

Ento, temos o problema e temos sua soluo. Como aproximar o problema da soluo? 

Utilizando estratgias adequadas, 

Vrias estratgias podem nos aproximar de um mundo inclusivo. 

Umas so mais eficazes que outras. 

O que  uma estratgia eficaz? 

 aquela que promove no apenas a conscientizao, mas d o start na ao. 

A eficcia pode ser medida pelos aspectos quantitativos e qualitativos das transformaes que desencadeou, direta ou indiretamente. 

A conscientizao trabalha para a integrao. 

, de certo modo, passiva. 

A ao trabalha para a incluso.

 ativa.
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Essa passagem da conscientizao para a ao est bem definida na Resoluo 45/91, da ONU, que explicita os parmetros de uma sociedade inclusiva: 

"A Assemblia Geral solicita ao Secretrio-Geral uma mudana no foco do programa das Naes Unidas sobre deficincia passando da conscientizao para a ao, com o propsito de se concluir com xito uma sociedade para TODOS por volta do ano 2010". 

Algumas palavras traduzem com requinte a diferena entre concretizar-se e agir. 

Bom exemplo reside no vocbulo respeito. 

O sentido do grupo de fonemas que compe a palavra respeito esvaziou-se no decorrer dos tempos. 

Ou talvez nunca tenha tido a conotao suficientemente arrojada que o conceito de sociedade para TODOS exige de alguns termos. 

Nos dicionrios, ler sobre respeito confunde. 

Vem do latim respectare, que significa "olhar muitas vezes para trs". 

Retomar O passado ajuda, sim, quando desejamos evitar os mesmos equvocos no presente. 

 igualmente produtivo reconhecer o que passou como a base slida das etapas que nos propiciam edificar a atualidade. Seria possvel defender a incluso se no tivssemos conhecido a integrao, mesmo que na teoria, em tantos casos? 

No se faz histria desmerecendo-a, maltratando-a, rechaando-a. 
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Passado nunca  vergonha. 

Representa as possibilidades objetivas daquele momento. 

Em 1992, quando escrevi meu primeiro livro, o Muito prazer, eu existo, sobre as pessoas com sndrome de Down, deslumbrava-me com as escolas especiais de boa qualidade.
 
Hoje no.
 
Deslumbro-me com as escolas comuns de qualidade. 

Como me sinto em relao a isso? 

Entendo que TUDO  processo. 

Que sejamos tolerantes com o nosso pensar, com o pensar de nossos interlocutores e com o nosso sentir.
 
Retomando ... 

Respeitar tambm significa "venerar, acatar, tratar com reverencia".
 
Vejamos a frase: 

Crianas, respeitem os mais velhos, olhem a idade de seu av!.
 
Pronunciando esta ordem a me sente-se resolvida, digamos assim. Acredita estar intermediando com competncia o relacionamento entre duas geraes.
 
E as crianas? At respeitam os mais velhos. Mais por considerao. Conseguem entender suas necessidades? Quem sabe ... 

Ningum sabe. 
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Nesses mesmos dicionrios o vocbulo respeitar pode ganhar o sentido de ter medo, de temer: 

"Os animais da selva respeitam o leo, Rei dos Animais". 

Pessoas com deficincia, eu penso, agradecem, mas abrem mo dessa forma de respeito.
 
Vamos continuar a pesquisa.
 
Rwespeito ainda pode querer dizer: no causar dano, poupar, fazer justia "a depende do entendimento de justia que se tem", suportar, aturar, admitir, tolerar, dar apreo, reconhecer etc. 

E no dia-a-dia? 

No senso comum, a palavra respeito vem sendo utilizada mesmo  para no revelar com qual causa estamos comprometidos. 

Muitos governantes soltam a voz, garantindo: 

"eu respeito os anseios populares".
 
E dai? 

Quem sabe como pretendem agir em nome desta constatao? 

A conotao dbia do vocbulo respeito tem muita utilidade.
 
Ele costuma ser escolhido quando o objetivo de quem fala  disfarar suas intenes.
 
No caso de algum ser indagado sobre suas convices religiosas, ainda mais se trocou uma prtica por outra, menos aceita socialmente, costuma responder, esquivando-se da verdade: "Eu respeito TODAS as religies". 
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E quem perguntou? Continua sem resposta. 

O genuno sentido de respeito vai alm da generosidade, da passividade to simptica, colorao que o vocbulo tem hoje. 

Por isso  to difcil solicitar ou exigir que algum tenha um comportamento respeitoso. Alm de nascer do desejo, a relao entre quem respeita e  respeitado pressupe sistemtica interao. Significa ir ao encontro de. 

A no ser que se minta. 

No caso das pessoas com deficincia, quem  honesto ou louco o suficiente para dizer que no as respeita? 

At porque dizendo que as respeita no est assumindo cumplicidade nenhuma, qualquer compromisso . 

Est, sim, demonstrando ser consciente das dificuldades enfrentadas por indivduos com deficincia. Disposto a agir? A mudar? A transgredir? Ningum sabe. 

Passemos da conscientizao  ao. 

Estratgia  ao.

Estratgias so aes que, seguindo uma mesma diretriz, no Contexto de misses bem definidas, possibilitam mudanas desejadas. 

Acredito que quanto mais rapidamente melhor. 

Estratgias geram reflexo e reavaliao imediata de uma situao com o objetivo de vir-la ao avesso. 

Seria como ... 
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Tentar tirar as calas pela cabea. 

Estratgias no combinam com polticas pblicas compensatrias. S transformadoras. 

Quatro vivncias como jornalista, no ltimo ano, me permitiram entender com clareza o significado de estratgia. 
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Estratgia 1 
Cultura indgena 

Em abril de 1999 representei a Andi, como Jornalista Amiga da criana, no II Encontro das Tribos Jovens, em Porto Seguro, Bahia. O evento foi organizado pela empresa Corpos Integros, em parceria com a Escola de Arte Tear, o projeto Terra do Grande Encontro, o Canal Futura, a Comisso Brasil-Indgena, 500 anos e o Instituto Arapoty, de So Paulo, de responssabilidade do ndio Kak Wer Jekup, um dos coordenadores e a presena mais marcante do encontro.
 
Ali reunidas estavam mais de 300 pessoas, entre ndios de cinco tribos diferentes, educadores e jovens de 12 estados do pas, predominantemente do Rio, de So Paulo, de Salvador e de Recife. Dentre os adolescentes, de classes sociais diversas, muitos eram lderes de suas comunidades. Outros, alunos comuns, levados por suas escolas particulares. O objetivo era, juntos, trabalhando a arte, a educao e a etnia, buscarmos a verdadeira identidade da nao brasileira.
 
Esse primeiro contato profissional com a cultura indgena foi desafiador.
 
Revi o meu TODOS. 

O povo indgena no estava nele. 

Ou melhor, estava apenas como folclore, curiosidade, ndio do livro de histria do antigo curso primrio, da lenda de Robson 
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Cruso. Essa imagem do indgena bom e passivo, to difundida pela literatura, referia-se "ao ndio convertido e no quele resistente, morto ou obrigado a fugir para longe da rea dominada", como li recentemente no livro Aw - Os Xavantes na Balana das Civilizaes, de Frans Leeuwenberg e Mrio Salimon.
 
Ao pensar em ndios eu acessava imediatamente o qu? 

Minhas memrias da infncia . 

Atitude inconsciente, mas leviana. 

Vejam s a subliminaridade do processo da incluso dos diversos grupos, minorias ou no, no TODOS de cada pessoa. 

Eu sempre me mobilizei com as questes indgenas, mas at ento no havia permitido que entrassem no meu TODOS do social. 

O TODOS de um social adulto, posso dizer.
 
Lembrei-me nesta nova estada em Porto Seguro de minha lua-de-mel, passada l, h 20 anos, e do quanto eu fotografara de forma sfrega os indgenas que vira. Reduzindo-os  curiosidade. Curiosidade respeitosa. Curiosidade passiva. Eu c, eles l.
 
Ora, esse TODOS de mentirinha, resqucio de um TODOS infantil, no me seduz mais.
 
Se amadurecemos em TUDO (ou quase TUDO), por que no nos esmerarmos em dar ao nosso TODOS do social oportunidades de se desenvolver tambm?

Para incluir, j dissemos,  preciso reconhecer. 

Que cada tema ganhe visibilidade dentro de ns. 
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Ou reconheo que o povo indgena e o povo urbano tm a mesma ancestralidade e acredito no resgate de um conjunto chamado Ser Humano, ou ser dificil continuar trabalhando para que a deficincia seja includa, de forma transversal, no rol das questes artsticas, profissionais, sociais, polticas e econmicas brasileiras, entre tantas outras.
 
Impossvel defender as diferenas humanas individuais por etapas:
 
"De ndio eu at gosto, de nordestino ainda no"; 

"Deficiente fisico deve ficar em classe regular, j deficiente mental, depende, no sei no ..."etc.
 
Eu penso que seja em decorrncia dessa impossibilidade de nos fragmentarmos na busca de um TODOS que metade das escolas particulares, l no encontro, tinha, h anos, estudantes com deficincia em suas salas de aula comuns.
 
Assim, atravs de suas escolas, trs jovens com comprometimentos diversos estiveram conosco naqueles dias em Porto Seguro. Eles chegaram l da melhor forma, inseridos no , seu TODOS, o TODOS do ensino regular.
 
Insisto na concluso: 

Instituies de ensino que se abrem para o mundo abrem-se TODOS os mundos.
 
Desse modo, tm mais chances de se tornarem escolas para TODOS. Para TODOS, mesmo. 

Tive oportunidade, nesse encontro em Porto Seguro, de conhecer alguns projetos do Instituto Arapoty, que se dedica a Promover aes junto ao povo Kariri. O Instituto incentiva a 
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recuperao e a valorizao dos rituais, das danas, da arte e da filosofia Kariri. Este conjunto de manifestaes culturais recebe o nome de Tor.
 
A nao Kariri  formada por um grande nmero de povos. Os vrios ramos se distribuem pelo serto nordestino, do Piau ao Rio Grande do Norte, passando pelo Cear at os limites da Chapada Diamantina, no centro da Bahia. Concentramse s margens do So Francisco. J foram catequizados, explorados, invadidos. Os Kariri se distanciaram de sua lngua nativa e de seus rituais tradicionais. Como dura conseqncia deste processo, tiveram sua condio indgena contestada por polticos e pela populao regional. Passaram a ser designados pejorativamente de caboclos, situao que, segundo eles, renega sua identidade. 

S a partir dos anos 60 a nao Kariri, contando com alguns aliados, passou a se reorganizar etnicamente, retomando suas manifestaes culturais. Atravs delas, comearam a se reconectar com a fora espiritual da nao, restabelecendo sua condio indgena. 

Tambm em Porto Seguro, tomei conhecimento da Aldeia do Saber Sagrado, uma ao pioneira no Brasil e na Amrica do Sul. Fica em Itaquaciara, So Paulo. A Aldeia  um Centro Educacional a servio dos povos indgenas, priorizando a infncia e a juventude. Sua atuao  voltada para a reestruturao social de suas comunidades a partir da revitalizao da cultura nativa brasileira; da convivncia intercultural de povos milenares; da pesquisa e das aes de desenvolvimento de auto-sustentabilidade. A Aldeia do Saber Sagrado tambm se destina ao intercmbio cultural com a sociedade, desenvolvendo cursos e vivncias transdisciplinares, sempre objetivando a difuso da cultura indgena.

Estas informaes me foram fornecidas pelo Instituto Arapoty.
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Fato  que naqueles dias de abril, no Stio do Descobrimento, em Porto Seguro, vivenciamos um ritual de passagem deflagrador e multiplicador de um amplo processo de mobilizao da juventude brasileira.

Nele, os 500 anos de descobrimento do Brasil no foram citados nem como um marco histrico do ano 2000. 

A festa que mais importava  a do recomeo, da formao de uma nova tribo urbana.
 
A tribo-do-TODOS-que--TUDO.
 
Conviver com o povo indgena e exercitar um olhar inusitado sobre ele me deu subsdios para continuar argumentando sobre a importncia de alavancarmos a construo de uma sociedade inclusiva no Brasil. 

confesso, no entanto, ter demorado um pouco para entender a transcendncia do que se passava ao meu redor. Meu dilema inicial poderia ser assim traduzido: 

"Vim ao II Encontro das Tribos Jovens para pensar ou sentir?" 

Cheguei querendo anotar tudo: pedia releases, folders, textos, dados... Neura de jornalista. At que percebi o quanto seria inutil, naquele encontro, buscar informao pelos meios tradicionais. Os registros que eu tanto buscava chegariam no via razo, nem simplesmente via emoo, mas atravs da minha capacidade de entrega. O quanto eu estaria disponvel ao impacto das vivncias propostas pelo evento? 

No foi fcil. No cotidiano fao o contrrio, temendo perder a tal da viso crtica que tanto norteia o jornalista na profisso. Foi quando pedi paz ao intelecto, e dei vez ao meu esprito. Agi inspirada nas palavras do ndio do Mato Grosso do Sul, Marcos 
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Terena, conosco em Porto Seguro por alguns dias: " preciso cuidar da alma, seno algum cuida dela por voc". S ento, ainda dura, trancada, com dificuldades, me permiti entrar na roda e na dana das sintonias e das vibraes sugeridas e clamei, como minha av Marina diria, por contra-danas, infinitas contra-danas, tendo como par minha alma mais remota. 

Grande parte das atividades (palavra que me parece pobre demais para expressar o que ali foi vivido) do Encontro eram nas florestas, durante o dia ou a noite. Em uma das madrugadas participamos da chamada Cerimnia do Arco-ris. Nela, pela segunda vez, no Brasil, ndios de tribos diferentes cantaram e danaram juntas por vrias horas.
 
Na manh do ltimo dia, l na Reserva da Jaqueira, na floresta, aconteceu a to esperada partilha dos sonhos. Por quase uma hora, danamos o Tor. TODOS juntos. Depois, jovens e adultos, ndios e no-ndios, dividiram-se em conjuntos eclticos pelas clareiras. Sentados em crculo, aps alguns rituais especficos, cada integrante da roda revelava seus sonhos. Realizados ou por realizar.
 
Resolvi no participar (estaria com receio?). Como jornalista (essa desculpa  sempre boa ...) preferi ir de grupo em grupo pescar um pouquinho do que estava sendo dito. A idia foi boa, porque em uma dessas idas e vindas ouvi o depoimento marcante de uma educadora nissei, do Rio de Janeiro. 

 preciso ressaltar que, durante a partilha dos sonhos, a emoo, o choro, o afeto, ou o resgate dos afetos eram uma tnica de TODOS os grupos. Muitas mes, educadoras e jornalistas, que estavam no encontro a trabalho, lamentavam-se de que seus meninos e meninas, adolescentes, no estivessem l.
 
Havia profissionais com sua prole. Eu, inclusive. Levei Talita, minha filha, na poca com 15 anos. Perdeu aula e provas. 
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Valeu a pena. Segundo ela prpria me revelou, antes de desmaiar de tanto cansao e dormir no banco do aeroporto em Porto Seguro: "Me, essa viagem foi a mais legal da minha vida, mais legal at que a viagem de 15 anos a Disney sozinha com meus amigos".
 
Uau! 

Mas voltando  educadora nissei. 

Ela contou, aos prantos, convulsivos, que naquele encontro pensara muito no seu filho de 7 anos, nissei como ela. Recentemente, o menino fizera uma redao na escola sobre as partes do corpo. E dissera adorar as pernas, "que o levavam aonde ele queria". E odiar os olhos, porque "no agentava mais ser chamado de japonesinho na escola". 

O menino queria sentir-se parte do TODOS brasileiro.
 
Nossa! 

Nunca havia imaginado que uma pessoa poderia enfrentar preconceito e sofrer, no Brasil de hoje, na cidade do Rio deJaneiro, por ter olhinhos de japons.
 
Uma criana sentir-se excluda por isso? 

Para mim  lindo! 

Eu mesma j chamei tantas crianas de japonesinhas. Era elogio, mimo... Agora no chamo mais. E sempre que tenho alguma intimidade com homens ou mulheres nisseis pergunto se enfrentam dificuldades por isso. Virou pesquisa. 

Por que conto essa histria? 
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Para que reflitamos mais sobre quem cabe no TODOS de cada um de ns. E ainda sobre a tranqilizadora sensao que  sentir-se parte de um TODOS que admiramos e desejamos. No caso do menino nissei, a Ptria. 

Como foi dito no incio deste captulo, vrios caminhos levam  construo de uma sociedade inclusiva. 

Apesar de a Resoluo 45/91 da ONU defender um mundo para TODOS no mbito, principalmente, da deficincia, fica implcito, na leitura do documento, que sua defesa  mais ampla. Busca um TODOS universal. Universal, mesmo. 

O meu vis, ou vetor, ou estratgia para chegar a este modelo de sociedade  a deficincia. 

H outros caminhos, tantos, infinitos. 

TODOS desestabilizadores, promotores de reflexes indignadas.
 
Uns mais contundentes que outros. 

O II Encontro das TribosJovens elegeu a cultura indgena como sua estratgia de ao. Uma estratgia com marketing, appeal, capaz de despertar curiosidade, seduzir, encantar. 

Tem jeito de novo. 

Deficincia, no. 

Respondam rpido:
 
Que escolas e instituies levariam seus alunos (pagando por isso, inclusive), para um encontro cujo principal objetivo fosse discutir, com os adolescentes, propostas para a construo de uma sociedade inclusiva a partir da eliminao de barreiras 
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Que limitam a qualidade de vida das pessoas com deficincia? Barreiras fisicas e humanas!
 
Quais pessoas no Brasil concordariam que esta proposta de encontro  uma vivncia to til para a formao de um Jovem quanto a primeira, referenciada pelo contato com a cultura indgena? 

TUDO se resume em direitos humanos e cidadania.
 
Os dois temas merecem idntica ateno. 
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Estratgia 2 
Desenvolvimento Sustentvel 
 
Desde o incio de 1999 atuo como consultora do programa Na 	Arquibancada, produzido pela MultiRio, Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura Rio de Janeiro. A srie, veiculada semanalmente na TV Educativa e na TV Bandeirantes, para TODO o Brasil, foi criada para saber o que pensam, o que sentem, o que querem os jovens cidados brasileiros, tendo uma grande audincia entre eles. Trabalho com as jornalistas Valria Loreto, gerente deste projeto, e Virgnia Palermo, gerente do Ncleo de Programas Informativos da MultiRio, no qual estr inserido o Na Arquibancada. 

Meui trabalho  sugerir pautas, pesquisando e redigindo o texto bsico que ir gerar os roteiros. Participo da aprovao desses roteiros e indico os profissionais que devero ser entrevistados no programa. Dependendo do tema, posso ser convocada para acompanhar outra etapa do processo de produo, como a edio final. 

Um desses programas, sobre o lixo, teve um efeito decisivo para incluir a questo ambiental, definitivamente, no meu TODOS das preocupaes. 

Logo me esqueci dos filmes de fico cientfica. A maior ameaa  segurana da Terra no vem do espao, sob a forma de asterides gigantes em rbita de coliso ou de naves tripuladas por aliengenas dispostos a nos subjugar. O grande inimigo do planeta  a prpria humanidade que o agride sculo aps sculo. A produo exagerada de certos 
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bens (como roupas), com o objetivo de induzir as pessoas a consumi-los  uma forma de ataque  harmonia do planeta. A soluo seria acabar com a moda? Abrir mo de se vestir bem? 

Se queremos mais conforto, aumentamos o gasto de energia e... produzimos mais lixo. O que fazer? Deixar de andar de carro e avio? Problema  que o uso de combustveis fsseis (carvo, petrleo, gs) resulta em chuva cida e efeito estufa. O planeta se aqucce. Surgem novos furaces, inundaes, eleva-se o nvel do mar, hoje subindo a uma velocidade dez vezes superior  normal. No futuro, pases inteiros podero desaparecer sob as guas.
 
Mares intensamente poludos, peixes que j no podem servir de alimento, montanhas sem plantas e animais, ridas, cujas terras, exposta pelo desmatamento, so arrastadas pelas chuvas. Dificilmente um novo ecossistema se instalar ali. Montanhas so vitais para mais da metade das pessoas do planeta, que vivem  sombra de seus sistemas fluviais e climticos. Quando esses sistemas so alterados, as comunidades de tradio montanhesa se desesperam, pois raramente conseguiro se adaptar  vida nas cidades. O saber dos mais velhos, que sempre souberam cuidar do equilbrio biolgico da regio vai desaparecendo com o tempo. A lei do ecossistema, envolvendo plantas e animais,  clara: quem come quem ou o qu. Pagamos um preo caro quando essa cadeia alimentar harmnica, que interliga vidas, mostra-se alterada. Que tristeza ver a terra boa se tornando cada vez menos frtil. Esta situao j afeta 1/4 da rea terrestre e aproximadamente um bilho de pessoas. 

As florestas so uma preocupao  parte pela importncia que tm para TODOS os tipos de vida que coabitam o planeta. Na Amaznia, uma nica rvore fornece moradia para duas mil espcies de animais. As florestas tm funo vital para o ecossistema global porque funcionam como escoadouro para 
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O dixido de carbono. Se acabarmos com elas, ns, seres humanos, no teremos como sobreviver. No Brasil, milhes de rvores da Amaznia so cortadas TODOS os anos.  um massacre.
 
Quantas geraes brincaram-e brincam-de desperdiar gua, agredir as plantas, produzir e acumular lixo: qumico, nocivo, txico  vida... Agora a situao tornou-se catica. A produo de lixo slido-como o esgoto, e aquele comumente produzido nas casas (das cascas de banana s latas)- deve aumentar de quatro a cinco vezes at o ano de 2025. Lembrando que nos paises em desenvolvimento menos de 10% do esgoto humano so tratados. Se nada acontecer de diferente, daqui a 30 anos estaremos soterrados por uma montanha de esterco humano. 

Em relao ao lixo perigoso? Remanescente da tecnologia aplicada s indstrias ele age contra a sade da humanidade. O lixo das indstrias  enorme. A cada ano, 260 milhes de toneladas de residuo industrial so produzidos apenas nos Estados Unidos-nmero muitas vezes maior do que TODO o lixo industrial gerado no mundo. O que fazer com os produtos qumicos? Impasse  que alguns deles so fundamentais para a vida moderna e precisam continuar a ser produzidos. H ainda o risco da inflamabilidade. Pilhas de rdio e termmetros caseiros, se abandonados em depsitos de lixo, podem se tornar perigosos. Produtos quimicos txicos j so proibidos em pases desenvolvidos, mas continuam sendo descartados ilegalmente nas regies desertas, pricipalmente perto da costa martima dos pases pobres. 

Merece TODA a ateno o destino do lixo gerado por ns, brasileiros.
 
Ele vira comida, casa, sustento e diverso para aproximadamente 50 mil jovens brasileiros. H pesquisas mais alarmantes. Dizem chegar a cem mil as crianas e os adolescentes que vivem e trabalham no lixo, expostos a cacos de vidro, ferros retorcidos, agulhas usadas em hospitais. Segundo o IBGE, 74%. 
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dos municpios brasileiros depositam lixo hospitalar a cu aberto e apenas 57 separam os dejetos nos hospitais.  natural que essas meninas e meninos estejam expostos a uma srie de doenas. Sofrem de diarrias, ttano, febre tifide, tuberculose e leptospirose. So males ligados ao lixo. Nos resduos slidos, os microorganismos causadores dessas doenas sobrevivem por dias e at meses, como  o caso do bacilo da tuberculose. 

Em TODO o pas, a falta de saneamento, a ausncia de coleta de lixo regular e de qualidade, na maioria dos municpios, e a convivncia direta com o lixo fazem explodir o nmero de registros de algumas doenas. Em 1982, o Brasil detectou 12 mil casos de dengue. Em 1998, foram mais de 527 mil notificaes, espalhadas por vrias regies. S no Nordeste, 240 mil pessoas foram infectadas pelo mosquito aedes aegypti. No Sudeste, 230 mil. O clera vem ressurgindo com fora total. Em 1991, detectaram 2,1 mil casos da doena. TODOS na regio Norte. Em 1998, 2,6 mil. Em 1994, o Brasil chegou a ter 51,3 mil indivduos infectados com o vibrio colrico. 

Esses dados sobre as doenas do lixo so da Fundao Nacional de Sade, do Ministrio da Sade. 

O trabalho das crianas que vivem nos entulhos  cruel. Ajudam seus pais a catar embalagens plsticas, papis, latinhas de alumnio. Separam vidros e restos de comida. Carregam fardos dos pesados, empurram carroas. So meninos e meninas, de TODAS as idades que ganham de R$l,OO a R$ 6,00 por dia. Dinheiro fundamental para a sobrevivncia de suas famlias. 

A maioria dessas crianas no estuda. Segundo pesquisa do Unicef, em alguns lixes, mais de 30 das crianas em idade escolar nunca foram  escola. Mesmo aqueles que chegam a se matricular abandonam os estudos, porque precisam ajudar a famlia ou pelo preconceito que sofrem por serem "crianas do lixo". 
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Por TUDO isso, foi lanada em junho de 1999, no Brasil, a campanha Criana no Lixo, Nunca Mais, iniciativa conjunta do Frum Nacional do Lixo e Cidadania, criado em 1998, do Unicef e de outras 23 instituies brasileiras como o Ministrio Pblico e a Caixa Econmica Federal. O objetivo est sendo mobilizar a sociedade brasileira a colaborar na erradicao do trabalho infantil no lixo. Desafio: fazer com que essas crianas voltem ou comecem a estudar. E sejam bemvindas s escolas. Alm disso, que tenham garantidos seus direitos  sade,  nutrio,  moradia, ao lazer,  informao e a proteo integral. s prefeituras, caber repensar o gerenciamento dos resduos de suas cidades, implementando novos programas de coleta seletiva de lixo nos domiclios, em parcerias com empresas de reciclagem e cooperativas de catadores. At o ano de 2002 os lixes estaro sendo erradicados. O entulho ir TODO para aterros sanitrios. Essas so as metas da campanha.
 
O que fazer do lixo  um problema que surgiu quando o homem comeou a viver em cidades. E as cidades so uma das invenes mais antigas da humanidade. Embora s nas ltimas dcadas o assunto tenha virado notcia na mdia, o destino dos resduos deixados pelo homem j preocupava gregos e troianos, literalmente.
 
Estudiosos levantam a hiptese de que o lixo acumulado atrs das casas tenha sido o principal motivo do nomadismo de alguns povos. Um mau cheiro insuportvel obrigava populaes inteiras a procurar outro canto para construir uma nova cidade. 

Algumas civilizaes resistiram e encontraram uma forma pacfica de conviver com seu entulho. 

Apenas seis das sete colinas da cidade de Roma, na Itlia, tm formao geolgica. Uma delas, a Colina do Capito, foi formada com o lixo das cidades. Est documentado no artigo Po-
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pulao, Lixo Urbano e Qualidade de Vida, do engenheiro Sergio Ramos, no livro Populao, Meio Ambiente, Qualidade de Vida, uma coletnea de textos coordenada por Manoel Augusto Costa e publicada pelo Centro de Estudos de Polticas de Populao e Desenvolvimento CEPPD em 1990. 

Mas o lixo no precisa ser fonte de problema, pode gerar riquezas. Reduzir, reciclar e reutilizar. Esses "Rs" so fundamentais na preservao do meio ambiente. A reciclagem  uma indstria que no pra de crescer em alguns pases. Produz papis, folhas de alumnio, lminas de borracha, fibras e energia eltrica - gerada com a combusto de materiais. J h tijolos feitos de lixo. 

No Brasil, temos muito a fazer. Segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Bsico, realizada pelo 1BGE em 1989, apenas 0,6% do lixo brasileiro era reciclado. E 88,02% ficavam a cu aberto. Ainda desperdiamos, a cada ano, R$ 4,6 bilhes porque no reciclamos com a amplitude que poderamos. Esta informao  do pesquisador e professor de economia da Universidade de So Paulo, Sabetai Calderoni, autor do livro Os bilhes perdidos no lixo.
 
Em junho de 1992, 180 lderes se reunram no Rio de Janeiro durante a Cpula da Terra, o maior encontro de autoridades mundiais realizado na histria. Juntos discutiram o futuro do Planeta. Deste encontro resultou o documento conhecido como Agenda 21, um plano para "salvar o planeta da destruio", como disse o ento presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, em seu discurso na abertura do evento. 

A Agenda 21 diz que s h uma alternativa a seguir: "Impedir ou minimizar a produo de lixo, educando os cidados a no terem atitudes poluentes."
 
O texto da Agenda vinha sendo preparado h meses pelos pelos paises que planejavam se encontrar no Rio. Seus 40 captulos, divididos 
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Em 500 pginas, detalham um programa de 600 bilhes de dlares que planeja ensinar homens e mulheres a cuidar do mundo. Para que seus netos, bisnetos, trinetos e tataranetos possam viver nele. A Agenda tambm sugere uma aliana internacional entre jovens cidados. O nome dessa parceria  Misso Terra, proposta para conscientizar crianas e adolescentes do quanto suas aes so decisivas para garantir a qualidade de vida de nosso planeta. A Misso pede aos jovens que se liguem em redes, trocando informaes, conferindo idias, colocando em prtica um mutiro SOS. 

Em 1999 foi lanado o livro Misso Terra: o resgate do planeta, resultado do trabalho de 10 mil crianas de 75 pases, que o planejaram, o escreveram e o ilustraram. Elas fazem parte do grupo de trabalho da Agenda 21 de Crianas, jovens que realizaram sua prpria Cpula da Terra, chamada de Cpula do Rio, durante o encontro de 1992. Antes, em maro do mesmo ano,300 deles, de 97 pases, reuniram-se em San Jos, na Costa Rica. Eram 75 de naes em desenvolvimento; 50% de mulheres; e 10% de indgenas- uma rplica exata da populao mundial - dizem os textos sobre o assunto. 

Ser?

Tenho dvidas em relao  representatividade desses jovens no contexto da diversidade humana mundial. Representaram, sim,as diferenas de gnero, as culturais, tnicas, regionais, possivelmente as desigualdades sociais (que no costumam ficar de fora porque pega muito mal...). 

Em minhas pesquisas procurei referncias a questes especficas colocadas por esses jovens em relao  deficincia, s doenas crnicas, s diferenas psquicas, de intelecto, no funcionamento do corpo e da mente. No encontrei, embora no livro Misso Terra: o resgate do planeta esteja publicada uma pesquisa sobre as palavras que aparecem com maior freqncia na Agenda 21. "Deficincia" foi verificada, o que  timo! 
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Apesar de, nesta pesquisa, figurar em ltimo lugar. Mas tambm, como  possvel constatar, a competio estava desleal: Governo (1.107), pesquisa (421), cooperao (416), treinamento (368), mulheres (272), educao (249), povos indgenas (162), jovens (80), crianas (66) e deficientes (6). 

Continuando ... 

Daquela semana na Costa Rica saiu a Declarao da Juventude para o Rio, documento tratando de questes que iam da pobreza  poluio. Esta Declarao apontou esquecimentos nos tpicos que seriam discutidos na Cpula da Terra por autoridades mundiais poucos meses depois. Os jovens constataram que temas como controle da natalidade, consumo, desarmamento nuclear, direitos humanos, discriminao e nacionalismo (citam especificamente as guerras civis e o retorno do nazismo), fontes de energia renovveis, guerra e militarismo, governo, mdia, multinacionais e refugiados no seriam abordados na Agenda 21. 

At a, perfeito. 

No tivessem os jovens tambm cometido um esquecimento. Este, ao analisar o esquecimento dos adultos.  que se a Cpula da Terra no fez referncia explcita a doenas mentais e crnicas, distrbios neuropsquicos, deficincias etc., ajuventude se esqueceu, na sua avaliao, de acusar este fato. 

A no ser que o assunto esteja referido no item discriminao da Declarao da Juventude para o Rio. 

Pode ser. 

Embora tenha pesquisado com vigor, quem sabe estou enganada e os documentos a que tive acesso no sejam to completos como imagino serem? 
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Abro aqui um parntese. 

Quero relembrar um encontro muito fechado sobre trabalho ,jovens que aconteceu no Rio de Janeiro, entre ministros e secretrios da juventude de pases da Amrica Latina e Caribe em outubro de 1997. Seu nome era Encontro Internacional sore Juventude, Educao e Emprego na Amrica Latina. Foi lranizado pela Fundao Mudes, com o apoio e a participao da Organizao Internacional do Trabalho OIT, agncia especializada da ONU.
 
Estive l, como jornalista. 

E,lgico, militei. 

Peguntava aos organizadores, do mais ao menos importante (para conferir as respostas ...), por que o tema trabalho e defcincia no estava na pauta das discusses, visto o grande nmero de adolescentes que se tornam para, hemi ou teraplgicos em TODO o mundo em conseqncia de acidentes de carro. 

As respostas eram similares, mais ou menos assim: 

"Voc no est entendendo. Este assunto, fundamental, deve ser levado aos encontros nos quais se discute deficincia." 

E eu para mostrar que eles  que ainda no tinham entendido nada ... 

Que a minha proposta de discusso cabia como uma luva na ljuntura do encontro, isso cabia. 

No fiquei no evento o tempo TODO. Mas pedi a alguns colei,as jornalistas o favor de verificarem se, por iniciativa de qualquer participante, o tema por mim sugerido ia ser levantado. 
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Disseram-me que no.
 
Finalizando ... 

Desde o encontro da Cpula da Terra, o Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente (Unep) e a Unesco vm tentando influenciar os pases a promover, nas escolas, uma educao ambiental. Esto corretos e tm pressa. O conceito de desenvolvimento sustentvel precisa ser democratizado.
 
Essas so algumas definies genricas de desenvolvimento sustentvel: 

" atender s necessidades do presente sem comprometer a capacidade das geraes futuras contemplarem as suas necessidades de sobrevivncia."
 
Trata-se de controlar a demanda do mundo atual sem prejudicar a qualidade de vida das prximas geraes.
 
"Exerccio de construir diariamente um futuro pleno e comum." 

A velha histria de que o direito de uns termina quando comea o direito dos outros? Sim, mas neste caso  mais srio, pois os outros ainda nem nasceram.
 
Educao ambiental  ou no  um tremendo exerccio para a construo de sociedades inclusivas? 

Em TODAS as naes, crianas so as primeiras a sofrer com a degradao ambiental que elas mesmas ajudam a produzir, aprendendo com os adultos. Como somos pobres de exemplo! Precisamos reverter nossa fama de famlia-problema. 
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A sada est na educao. Inclusiva, naturalmente. Aberta  diversidade ecolgica, humana, cultural, tnica etc.
 
Educar jovens para que mantenham um relacionamento tico com o meio ambiente. Isso requer pacincia para conhec-lo melhor.
 
Que interessante! No  exatamente desse jeito que devemos nos relacionar com as pessoas no mbito de uma sociedade inclusiva? 

Relacionamento reconstrudo TODO dia. 

Passar s crianas e aos adolescentes uma lista de "50 coisas que  preciso fazer para salvar o meio ambiente" no funciona.
 
O meio ambiente, assim como os seres humanos, transforma-se o tempo TODO.
 
Sofre influncias sistemticas, inclusive da humanidade.
 
Por isso  preciso ensinar a juventude a construir suas regras.
 
E a no ter pudor de rev-las. 
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Estratgia 3 

Direito das mulheres 

Dificilmente uma minoria, legtima ou no sob o ponto de vista numrico, prejudica outro grupo minoritrio ao buscar avanos sociais e polticos para sua causa. 

Ou seja: A batalha pela no-violao de direitos faz parte de um TODOS s. 

Estratgias de ao diferentes ajudam-se mutuamente desde que inseridas em um mesmo ideal. 

Se descobrir uma estratgia eficaz e aprender a utiliz-la  bom, trabalhar com duas, trs, quatro ... E muito melhor! 

Em agosto de 1997 participei como palestrante do I Encontro de mulheres Jornalistas, promovido pela Associao Brasileira de Imprensa (ABI) e a Casa da Mulher Trabalhadora (Camtra).

Foi curioso, interessante. 

Profissionais denunciando preconceito em relao  mulher Jornalista em redaes de jornais, revistas, rdio, televiso. Os comentrios se referiam  desigualdade salarial,  injustia na distribuio de pautas e  falta de oportunidades para assumir alguma funo de confiana, entre outros. 

Fechei os olhos. 
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Poderia jurar que estava em um encontro de pessoas com deficincia. 

As queixas eram idnticas! 

 porque a luta pelos direitos femininos adquire cada vez mais o perfil de atuao das lutas por direitos humanos e justia social. 

Esta tambm  a reivindicao que melhor define o trabalho dos grupos de ajuda mtua em prol da construo de uma sociedade para TODOS no Brasil atravs da estratgia da incluso de indivduos com deficincia. 

Sobre as mulheres, quem duvida? So agentes de transformao. 

Como os homens, detm recursos humanos e sociais. Modificam o lar, o trabalho, a poltica ... 

Tal concluso parece bvia. 

Entretanto, chegar a ela foi dificil. 

Muitas lderes morreram pela causa maior: cidadania. Que inclui o direito ao voto, por exemplo.
 
At 1932 as mulheres no votavam no Brasil.
 
Nos Estados Unidos, participaram da primeira eleio em 1920. 

A Sua foi o ltimo pas do Ocidente a conceder, s suas cidads, o direito de eleger seus representantes polticos. Aconteceu em 1971.
 
Na Gr-Bretanha do incio do sculo, o movimento a favor do voto feminino, liderado por Emmeline Pankhurst, era dos mais atuantes. 
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Em 1913, Emi1y Wi1ding Davison, 40 anos, uma ativa mililitante, presa vrias vezes por defender a igualdade para as mulheres, foi pisoteada, morta por um cavalo do rei George ao invadir, sozinha, o hipdromo, enrolada numa bandeira do movimento. O animal, cavalgado por um jquei, tropeou e caiu.
 
Emily virou mrtir. Seu enterro foi um acontecimento. S em 1918, todavia, aps a Primeira Guerra Mundial, o Parlamento Britnico concedeu s mulheres de mais de 30 anos, e que fossem chefes de famlia (ou esposas de chefe de famlia), e tambm s que possussem diploma universitrio, o direito a voto. Em 1928, uma nova lei permitiu que j aos 21 qualquer mulher tivesse tal direito garantido.
 
Hoje, na era ps-Conferncia Mundial sobre a Mulher (realizada na China em 1995, durante a qual foi assinada a Declarao de Beijing), a nfase das reivindicaes femininas relaciona-se ao exerccio de outros tipos de poder. 

Est escrito no resumo dos principais compromissos assumidos pelos pases signatrios da Declarao citada no pargrafo acima:
 
"Ampliar a contribuio das mulheres no desenvolvimento sustentvel, mediante sua plena participao no processo de formao de polticas e adoo de decises, no campo do desenvolvimento social e econmico".
 
Caminhamos para a conscincia do quanto as vises femininas so fundamentais na formulao de uma sociedade para TODOS. 

A histria do movimento das mulheres no mundo  a histria da evoluo do mundo.

Imaginemos que ainda fosse perfeitamente natural excluir o item "diferena de gnero" do TODOS social. Que horror! 
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Houve o tempo em que o feminismo exclua o homem e lutava contra o patriarcado. Agora ele, do sexo masculino, no  mais o grande inimigo dela. 

As mulheres sabem que a imploso de um lado no tem como conseqncia a vitria do outro.
 
A ameaa ao movimento feminino vem da inrcia, da estagnao cultural e social. Da dificuldade que alguns setores da sociedade ainda tm de perceber que no h nada de errado do cultural ser construdo ou reconstrudo a partir das caractersticas biolgicas do indivduo.  a concluso de estudiosos do assunto. 

Entraves persistem.
 
Conheam e comparem esses dados: 

Apenas 10% dos cargos parlamentares e governamentais, no mundo, so ocupados por mulheres, que dificilmente usufruem das mesmas oportunidades econmicas e polticas oferecidas aos homens.
 
No TODOS da Amrica Latina e Caribe  dado s mulheres apenas de 7% a 11% dos programas de crdito das instituies bancrias formais. Na mesma regio, elas tambm recebem salrio mdio inferior ao dos trabalhadores do sexo masculino. Segundo a Unesco, no setor no-agrcola de muitos pas em desenvolvimento, a diferena no valor da remunerao funo do gnero  da ordem de 3/4.
 
Atesta o IBGE que, no Brasil, mulheres trabalhadoras representam 40,4% da populao economicamente ativa. TOTAL aproximado de 30 milhes de pessoas. Nos anos 70 eram apenas 27%. Na dcada de 80, 35%. Pesquisas tambm indicam que as mulheres so as primeiras a ser demitidas e as que mais sofrem com a perda de benefcios SOciais como cestas-sicas, seguro-saude, auxlio-creche e escola.
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Ainda mais porque muitas respondem sozinhas pela casa e pelos filhos, garantindo a sobrevivncia digna do lar. 

Outra pesquisa sobre o perfil da mulher trabalhadora no Brasil: Mapa das Questes de Gnero. Esta foi feita pelo Departamento Intersindical de Estatstica e Estudos Scio-econmico (Dieese).A sugesto desta avaliao veio da central nica dos Trabalhadores 
(CUT) da Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e da Fora Sindical.
 
Apenas algumas informaes obtidas:
 
A mulher negra recebe 2,48% a menos do que a mulher branca. Quando comparamos a primeira com o homem branco o salto  ainda maior: a hora da trabalhadora negra vale, em mdia, R$2,18 enquanto a dele est cotada em R$ 6,23. 

Nas indstrias, as mulheres recebem o equivalente a 56% do salrio dos homens para exercer a mesma funo. 

No setor de servios, embora sejam maioria, ganham menos 30%.
 
Em julho de 1997, o Centro Feminista de Estudos e Assessoria ( Cfemea) e a Rede Nacional Feminista de Sade e Direitos Reprodutivos (Rede Sade) organizaram, em So Paulo, o seminrio Mulher e Mdia - Uma Pauta Desigual? Este encontro indito entre feministas e jornalistas reuniu 22 homens e mulheres e virou um livro, organizado pelo jornalista Fernando Pacheco Jordo. 

Uma concluso apontada no livro surpreendeu-me: A mdia, hoje abre muito menos espao aos movimentos de mulheres do que nas dcadas de 70 e 80. 

Outra preocupao do grupo formulada no encontro  que aproximadamente metade das informaes publicadas na 
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mdia tem como fonte autoridades governamentais, principalmente na rea de sade. Esta tambm  uma angstia do movimento pela qualidade de vida de indivduos com deficincia. Provar que nenhuma matria deve ser publicada sem quq pessoas diretamente envolvidas no assunto sejam ouvidas. 

H muito aprendi que raramente as autoridades esto bem informadas. Abordei a questo no livro Ningum mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva no captulo 39, sob o ttulo: Quem entrevistar?".
 
Como estratgia, o movimento feminino ganhar maior habilidade quando ficar claro, para a sociedade, que as mulheres no so as nicas beneficirias de suas aes e de seus ganhos. As Naes Unidas vm propondo, nesse sentido, uma ampla reviso das polticas nacionais de TODOS os pases, de modo a prestar esse esclarecimento. 

Mulheres atuam no TODOS social,
 
para o TODOS do social,
 
sob a estratgia da diferena de gnero, 

no mbito,
 
sempre, 

da diversidade cultural. 
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Estratgia 4 
Protagonismo juvenil 

A idia pode surgir do nada, de uma vivncia particularmente signifitiva na rua, de qualquer reportagem mais instigante, na televiso ou do comentrio espirituoso de um amigo. 

O colgio? Influencia muito. A famlia tambm. 
 
s vezes, fatos comuns como namorar uma garota que tem o hbito de alfabetizar crianas em situao de risco social no bairro muda a vida de um jovem. Para acompanhIa, ele se descobre um professor nato.  ... Iniciativas decorrentes de paixes transformam-se em ideais. So o comeo de uma srie de posturas e de trabalhos voltados  comunidade.
 
Tem acontecido com milhes de adolescentes em nosso planeta. 

Jovens que nesse final do sculo 20 surpreendem os adultos pela capacidade de interferir no TODOS de suas comunidades, tenham elas a amplitude que tiverem (porque o TODOS, ns 
sabemos,  um conceito elstico). 

Esse fenmeno  conhecido como protagonismo juvenil. 

Protagonismo, palavra grega.

Protos quer dizer primeiro.

Ago significa luta. Agonistes, lutador. 
123 



Protagonista  o lutador principal. 

Trocando em midos vrias definies... 

Protagonista juvenil  o menino ou a menina que toma a iniciativa de promover e gestar aes que transcedam a seus interesses pessoais ou familiares, sempre relacionadas  soluo de um problema concreto. 

Cuidado para no confundir! 

Prticas impostas aos jovens para as quais ele  apenas chamado a participar ou a enfeitar no podem ser consideradas como de protagonismo juvenil. 

O professor Antonio Carlos Gomes da Costa, citado no incio deste livro e autor de vrios trabalhos sobre o assunto, explica em entrevista publicada numa edio especial do jornal Radcal, de Braslia (veculo sobre o qual tambm j falei): 

"(...)Na raiz do protagonismo tem que haver uma opo livre do jovem, ele tem que participar da deciso se vai ou no fazer a ao. Segunda coisa: O jovem tem que participar do planejamento da ao. Depois, o jovem tem que participar na execuo da ao, na sua avaliao e na apropriao dos resultados." 

Tem de TUDO. 

Eles defendem a ecologia, fazem jornalismo escoar, rdio comunitria, catam lixo na praia ou organizam um mutiro no condomnio a favor da reciclagem de lixo. Percorrem comunidades carentes - ou no - fazendo preveno de cncer de mama, distribuem camisinha, explicam como fazer sexo seguro, vo a asilos cozinhar nos feriados, percorrem bares de madrugada convencendo outros jovens a no dirigir alcoolizados. 
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Alguns exercitam o protagonismo dentro do crculo familiar. 

Como?

Propondo e organizando uma lista de doaes, no Natal, entre TODOS os parentes, com o objetivo de levantar recursos para comprar o material escolar do prximo ano letivo para os filhos de suas diaristas e empregadas domsticas. 

Muitos adolescentes comeam a fazer protagonismo no grmio escolar ou no ambulatrio da igreja mais perto de casa. Depois se interessam pelas atividades dos Conselhos Municipais dos Direitos das crianas e dos Adolescentes de suas cidades. 

De etapa em etapa, vo percebendo e confirmando que para garantir a sua sobrevivncia como adultos precisaro tomar decises cada vez mais solidrias (depois retomaremos o conceito de solidariedade). 

Esperar de braos cruzados o dia em que a sociedade vai achar que aquele jovem cidado est pronto para participar da vida pblica? 

Jamais. 

Este dia  hoje. 

Exercendo seu lado protagonista, o adolescente vai assumindo o compromisso de ser autor e ator de seu futuro.  lder de si prprio. Lder consciente e participativo. 

O terceiro setor recebe de braos abertos o movimento de protagonismo juvenil, tantos so os adolescentes que j se 1organizaram formalmente, criando as suas organizaes no-governamentais... O Folhateen, suplemento do jornal Folha de S.Paulo, publicou na edio de 26 de julho de 1999 a1gu 
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mas dicas essenciais para jovens interessados em fundar uma ONG. Entre elas esto: planejar a promoo de aes, a captao de recursos, definir uma linha de trabalho e no se desviar dela, encontrar solues simples e viveis para os problemas, buscar apoio em empresas privadas e capacitao. Tambm o Grupo de Institutos, Fundaes e Empresas (Gife), vem desenvolvendo projetos com o objetivo de formar jovens lderes para o terceiro setor. 

Mudana social em doses homeopticas.
 
Nem h necessidade de gestos de grande ousadia. 

Pequenas atitudes podem mudar o mundo.
 
No importa o tamanho desse mundo.
 
Essa  a diferena entre ajuventude do ano 2000 e aquela que agitava bandeiras nas dcadas de 60 e 70. 

Ningum  melhor ou pior. So contextos diversos. 

Naquela poca, o mpeto desbravador que caracterizavam a juventude estava canalizado para a poltica. 

S as aes engajadas em um posicionamento ideolgico tinham valor. 

O autopatrulhamento era tanto que menina do MDB, por exemplo, nem beijava na boca menino que se dizia a favor da Arena...

Talvez por isso, h pais de adolescentes, ainda mais se militaram politicamente no passado, com dificuldades em perceber a utilidade e o desdobramento das aes que mobilizam seus filhos. Alguns insistem em afirmar que a juventude atual  aptica, desinteressada, individualista, consumista: O jovem perdeu seu esprito de contestao", dizem. 
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No  verdade. 
Os adolescentes deste final de dcada so apenas mais flexveis nas suas posturas e nos seus objetivos. Vivemos um outro momento histrico.
 
O professor Antonio Carlos Gomes da Costa explica:
 
"...O jovem, hoje, quando se engaja, no pretende mudar o mundo, mas mudar o mundo  sua volta. Nossa gerao costumava querer salvar o proletariado, mas no arrumava a prpria cama de manh. Deixava para a empregada arrumar. 

(...). Quando voc oferece ao jovem a oportunidade de ele se envolver em aes concretas dentro do cotidiano para melhorar alguma coisa, ele o faz com entusiasmo. (...). 

Antes de dizer que deve estar havendo algum engano, porque TUDO o que se l sobre a juventude est relacionado a problemas, especificamente  violncia, respire fundo, despoje-se dos esteretipos e observe com ateno os jornais do pas. O clipping que a Andi envia semanalmente para os Jornalistas Amigos da Criana ( e cuja assinatura pode ser adquirida por qualquer pessoa ou entidade no telefone 61 - 322-6508 est repleto de relatos de protagonismo juvenil. 

Difcil at escolher que histria reproduzir.
 
Opto pelo jovem mineiro de Lagoa Santa, Eli Marcello, que conheci pessoalmente, impressionando-me com suas idias. 

Aos 14 anos, o menino recebeu do pai alguns folhetos que registravam o ndice de evaso escolar e repetncia em Minas Gerais. Era o ano de 1994. Eli mobilizou-se com o que lera, convidou o amigo Egle de Souza e decidiu fazer uma pesquisa nos bairros carentes de Lagoa Santa para apurar melhor esses ndices de evaso e repetncia escolar. 
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Os dois enviaram a pesquisa ao promotor de justia, que a Partilhou com o Conselho Tutelar. Com isso, TODAS as crianas que estavam fora da escola passaram a ser encaminhadas diretamente ao Conselho e, em seguida,  escola. 

O Arrasto Cvico, como foi denominado o movimento, comeou a ganhar apoio de empresas, que ofereciam, por exemplo, passes para o transporte ou material escolar. A Igreja colocou  disposio seu espao para que alunos do ensino mdio dessem aulas de reforo escolar aos mais jovens. Eram as Salas de Entender.
 
Em 1998 o projeto dos dois adolescentes j tinha a adeso. de 250 jovens na cidade.
 
E, o mximo! 

O ndice de evaso escolar de Lagoa Santa chegou a zero! 

Esses resultados provocaram o interesse de empresas como a Vale do Rio Doce, a Acesita e a Usiminas, que adotaram o projeto. As prefeituras de Porto Seguro (BA), Eunpolis (BA)  Belmonte (MG) seguiram o exemplo de Lagoa Santa. 

Que faz hoje Eli Marcello? 

Em entrevista ao jornal Radcal, ele contou que sua funo  fazer palestras sobre o Pacto de Lagoa Santa para multiplicar a experincia: 

"Minha rotina mudou completamente depois que me enbvolvi com o Pacto. Eu conheci uma realidade cruel de crianas que querem estudar e no podem. Isso mudou meu jeito de ver o mundo. Quando vejo um menino de rua, eu sei que isso  problema nosso.
 
Para mim, as pessoas que tm vontade de fazer algum;tsaj so protagonistas por si s. Minha dica para voc que
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quer agir  fazer o que pode, no tentar dar um passo maior que as pernas. TUDO pode ter um incio se voc comear a olhar mais atentamente para o que est perto de voc, na 
sua rua. Eu no imaginava que teria tanta gente trabalhando comigo. No mais,  determinar um ideal e no desistir perto do primeiro no". 

No Brasil, ainda  pequeno o nmero de jovens que atua como protagonista. 

Em 1997, pesquisa do Centro de Pesquisa Motivacional (CPM-Brasil), realizada com 1.440 adolescentes de cinco capitais (So Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife) que apenas 5 dos adolescentes brasileiros participam de movimentos protagnicos. Quase sempre estimulados por entidades religiosas.
 
Mas 53% gostariam de participar!
 
S no sabem por onde comear. 

Ai a pesquisa do CPM-Brasil foi alm. Verificou quais reas despertaram maior interesse nos jovens que ainda no atuam como protagonistas: assistncia  criana (36%), educao (19%), ambientalismo (18%), assistncia a deficientes fisicos (15%), assistncia a doentes em hospitais (14%), atividades em creches (13%), assistncia a idosos (12%), direitos da mulher (9%),aes promovidas por entidades religiosas (9%), promoo da cidadania (8%), assistncia ao adulto (5%). A soma ultrapassa os (100%) porque os adolescentes podiam fazer mais de uma escolha. 

Nas dcadas de 60 e 70, era mais fcil optar. Quem era da esquerda procurava o povo da esquerda; quem era de direita, o povo da direita. Hoje as possibilidades so mais numerosas e complexas. Os problemas a serem enfrentados idem. Por isso, inclusive,  comum - e natural - que o adolescente troque de 
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atividades periodicamente. At encontrar onde pode ser mais til e feliz. 

Em meio a esse caleidoscpio de opes, uma  consenso entre os protagonistas: paz. Campanhas que falam de desarmamento costumam mobilizar crianas e adolescentes em TODO o mundo. 

Criativo, dinmico, inovador e participativo, o jovem rejeita disfarces, concesses, simulaes. E o parceiro ideal no processo de construo de uma sociedade inclusiva. 

E no TODO de seu movimento protagonista, a juventude tem prestado um especial favor  sociedade. 

 o de divulgar o novo sentido daquela palavra bem gasta no Brasil: voluntrio. 

Ignore o passado, o rano do preconceito. 

Conhea algumas definies modernas de voluntariado. 

"Voluntrio  o jovem ou adulto que, devido ao seu interesse pessoal e ao seu esprito cvico, dedica parte do seu tempo, sem remunerao alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou no, de bem-estar social ou ambiental". (Organizao das Naes Unidas). 

"A atividade voluntria tem efeito bumerangue: a transformao social tambm ocorre na pessoa que participa". (Wanda Engel Aduan, atual Secretria de Estado de Assistncia Social, na poca, ano de 1997, Secretria de Desenvolvimento Social do Municpio do Rio de Janeiro, em entrevista  jornalista Mrcia Lisboa para a revista Pais&FilhosFamlia). 

"O ser voluntrio, como ator social e agente de transformao,  aquele que presta servios no remunerados  comuni. 
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dade. Compartilhando seu tempo, conhecimentos e habilidades, realiza um trabalho gerado pelo compromisso solidrio, contribuindo tanto para as necessidades do prximo ou aos imperativos de uma causa, como s suas prprias motivaes pessoais, sejam estas de carter religioso, cultural, filosfico, poltico, existencial". (definio dos partitipantes do Projeto Rio Voluntrio em encontro realizado em 1997.) 

"O trabalho voluntrio est inserido em uma rede de sociabi1idade e de trocas sociais, na qual o dinheiro no  moeda de referncia. Tratase de dispor socialmente do capital de saberes, competncias e talentos acumulados na histria da vida de cada um, compartilhando-os com os demais". (Tania Dauster, coordenadora do Subescritrio da Unesco no Rio de Janeiro, em entrevista  jornalista Mrcia Lisboa para a revista Pais&Filhos Famlia no ano de 1997). 

Mais informaes que facilitaro o entendimento do novo conceito de voluntariado: 

Trabalho voluntrio  uma prtica que decorre da troca de concepes entre grupos e pessoas. 

Na maioria das vezes, o principal objetivo de um trabalho voluntrio  lutar pelo acesso a direitos, inclusive  sobrevivncia. Por isso trabalhos assistencialistas continuam sendo importantes. 

A palavra-chave para entender o conceito de trabalho vo1untrio  solidariedade, que s vezes adquire conotao enganosa. Integrantes de uma gangue podem ser bastante solidrios entre si apenas para agredir inocentes. Colegas de trabalho, encobrem o erro de outros, na empresa, para evitar que a imagem da profisso seja comprometida. Nestes dois exemplos, muito citados, a solidariedade perde seu sentido tico, perde tambm seu valor. No trabalho voluntrio, solidariedade sig- 
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nifica troca e aprendizado conjunto. Pressupe responsabilidade social e cooperao. 

Responsabilidade social e cooperao. 

Essa foi a tnica do Seminrio Vem Ser Cidado, do qual participei, em 1998, em Faxinal do Cu, Paran. 

Mais de 500 jovens brasileiros, de origens culturais e sociais diversas reuniram-se para falar sobre seu protagonismo. Impressionou a capacidade de se organizarem e de trabalharem pela sociedade de forma to diversificada. 

Para ouvi-los, l estvamos ns, entre jornalistas e educadores, no sentido mais amplo que as duas profisses possam ter. TODO adulto virava educador. O que era uma generosidade da parte deles, os jovens, porque tnhamos a ntida sensao de estarmos sendo reeducados. O seminrio Vem Ser Cidado fortaleceu, em mim, um processo j em curso, levado com dificuldades: aprender a ouvir a juventude. 

O encontro foi promovido pelo Governo do Estado do Paran, especificamente pelo Secretrio de Educao, Ramiro Wahrhaftig (hoje Secretrio de Cincia, Tecnologia e Ensino Superior), em parceria com a Andi, o Banco Ita, o Centro de Estudos e Pesquisas em Educao, Cultura e Ao Comunitria (Cenpec), o colgio Positivo (de Curitiba), a Embaixada dos Estados Unidos do Brasil, a Fundao Abrinq, a Fundao Athos Bulco e o jornal Radcal, a Fundao Odebrecht, a Fundao Roberto Marinho e o Canal Futura, o Ministrio da Educao e o Programa Acorda, Brasil, o Sebrae-PR, a Unio Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), a Unesco e o Unicef. 

Faxinal do Cu  uma vila residencial que fica bem no meio do Paran, a 1.100 metros acima do nvel do mar. Foi criada em 
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1975 pela Companhia Paranaense de Energia Eltrica (Copel) para abrigar as famlias dos funcionrios que estavam construndo a Usina Hidroeltricde Foz de Areia. Em 1995, o governador Jaime Lerner instalou na antiga vila a Universidade do professor - Centro de Capacitao de Faxinal do Cu, um local TOTALmente dedicado  educao. 

No seminrio, foram discutidos os seguintes temas, definidos por um comit jovem criado no Paran com esta finalidade: mobilizao social, aes pela no-violncia, grmio estudantil, direitos humanos, meio ambiente e qualidade na escola, empreendorismo, sexualidade, no-preconceito, pluralidade e ao de voluntariado. Aconteceram tambm oficinas prticas: comunicao (rdio, vdeo, jornal), teatro, gincana, fotografia, meio ambiente, msica, Internet, empreendimento empresariial e artes plsticas. 

Na maioria das oficinas, jovens capacitavam jovens. E partilhavam experincias bem-sucedidas de educao para a cidadania. Foi nesta ocasio que conheci Eli Marcello, o jovem protagonista de Lagoa Santa. 

 noite, as atividades iam do Tor (lderes de tribos indgenas estavam l) aos saraus, das palestras ao teatro. O Centro de Referncia Integral do Adolescente, o chamado grupo Cria, de Salvador, apresentou a pea Quem Descobriu o Amor, provando que a arte-educao  um dos movimentos mais lcidos deste pas. 

Minha ateno foi voltada, desde o incio do evento, para um grupo de aproximadamente 10 jovens surdos e seus intrpretes. Eram do prprio Paran. 
Desde o incio foram a grande curiosidade do encontro. 

Foi bom que tivesse sido assim? 

De um modo, sim. De outro, no. 
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De um modo sim, pela agilidade com que o grupo foi includo no TODOS maior dos jovens de Faxinal. 

Uma das intrpretes, inclusive, dava um show cada vez que subia ao palco para trabalhar (essas profissionais, como  de praxe, alternam-se para descansar a cada 20 ou 30 minutos, at menos). TODOS ns adquiramos uma compreenso extra do que estava sendo dito pelos palestrantes s de observ-la. 

Havia um clima mximo de troca de afeto. 

E foi mal, ento, por qu? 

Porque segundo pesquisa qualitativa informal que fiz entre os adolescentes, TODOS j perto dos seus 16, 17 anos, a maioria: deles nunca havia visto de perto algum com surdez, muito menos de sua idade. 

Que tristeza! 

Um encontro que deveria ter ocorrido no incio da vida escolar estava se dando no meio da adolescncia!!!!! 

Antes tarde do que nunca? Sim, com certeza. 

Mas eu fiquei com medo. 

Medo de que a novidade, a oportunidade de conviver com jovens surdos ficasse apenas como uma lembrana esmaecida do seminrio de Faxinal. Uma curiosidade... Aquilo que a gente conta para a famlia logo que chega de uma viagem. E depois se esquece. No, no se esquece do fato, mas sim do impacto desse fato em particular sobre nossas vidas. 

A dvida : 
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Em que medida aqueles jovens perceberam que seus interessantes amigos surdos eram parte do TODOS humano e social deles? 

Imaginaram-se trabalhando juntos? 

Amando-se? 

O envolvimento vivenciado em Faxinal do Cu foi suficiente para provocar mudana de mentalidade e tambm de atitude nos jovens? 

O Brasil conta hoje com o maior contigente de jovens entre 11 e 24 anos de sua histria (a "onda jovem"). Mas os dados do IBGE apontam para um srio problema: A sociedade brasileira no se preparou adequadamente para receber tantas pessoas dessa faixa etria, no podendo oferecer-lhes condies mnimas de desenvolvimento. 

O sculo 21 nos encontra de calas curtas. E na mo! 

A sada? Um mundo inclusivo. 

Dito de outro jeito: O caminho para uma sociedade individualista e no-inclusiva  inevitvel? 

No! Est claro que no! 

Desenvolvimento econmico e humano podem caminhar juntos. Precisam caminhar juntos! A propsito,  justamente por que essa aliana no se estabelece com freqncia que tantos projetos scio-econmicos, em TODO o mundo, fracassaram. E continuam fracassando. 

Da para ser moderno (ou ps-moderno, como preferirem) combinando TODOS os aspectos, que nada tm de excludentes 
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quando se entende que o bem-estar da humanidade deve ser o objetivo principal dos governos.
 
Trabalho voluntrio, protagonismo juvenil e sociedade inclusiva so conceitos-irmos.
 
Falam da relao direta de nosso mundo de dentro com nosso mundo de fora.
 
Historicamente, est sabida e comprovada a eficcia da fona transformadora da juventude como alavanca de revolues se sociais e polticas.
 
A caminho de um TODOS inclusivo, os adolescentes se tornam estrategistas de amplas revolues humanas, tambm.
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A estratgia-me


O ttulo de melhor estratgia de ao vai para ... 

A incluso de crianas, jovens e adultos com deficincia na sociedade.
 
Que outro assunto  mais desestabilizador? 
 
Capaz de provocar reavaliaes, reformulaes e tomadas ou retomadas de deciso? 

Em qualquer ambiente, a chegada de algum que tenha comprometimentos mais visveis logo provoca reaes de inabilidade e cerimnia (principalmente se a deficincia no  transitria, devido a acidentes, por exemplo). 

As pessoas comeam a medir palavras, evitar brincadeiras que possam magoar, a controlar-se.
 
Da harmonia, nasce o desequilbrio. 

Do desequilbrio, o caos. 

Do caos, a crise.

Da crise, a busca de novas solues.
 
Deficincia como alavanca. Para alavancar a TOTAL reformulao que a sociedade inclusiva prope  escola, ao lazer,  cultura, ao turismo, s artes,  comunicao, s empresas brasileiras. 
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Vale ressaltar que tais mudanas sero benficas a TODOS.
 
E viriam, mais cedo ou mais tarde. 

A deficincia vai apenas aceler-las, vitamin-las. 

Por que deixar para amanh o que se pode-e deve-fazer hoje? 

A deficincia  o estopim de um processo de mudanas e tambm seu beneficirio. 

Mas a deparamo-nos com a realidade crua. 

 na mais eficaz das estratgias de transformao social que reside o maior reduto do preconceito humano: o pavor de ficar deficiente ou ter um parente deficiente. 

Como sair desse impasse? 

S vejo uma sada. 

Na atualidade, a incluso de pessoas com deficincia na sociedade no pode mais ser utilizada como fim, mas como meio.
 
Como uma espcie de cola. 

 isso! Como um im aglutinador de estratgias de origens diversas e de finalidades idnticas. 

Vamos nos unir a outros movimentos sociais para neles nos diluir. Diluir? 

. 

E, assim, nos fortalecer.
138 


Os movimentos sociais em prol da erradicao do trabalho infantil, 

a favor do desenvolvimento sustentvel, 

dos direitos femininos e 

da diversidade cultural, entre outros,

se regozijaro com nosso poder desencadeador de avanos desejados.
 
Precisamos adentrar nos movimentos nacionais por direitos humanos.
 
Devemos ser transversais a eles. 

Ou quem sabe seu prprio apoio tico. 

Por que quando o Brasil estiver apto a garantir os direitos das pessoas com deficincia no mbito de uma sociedade inclusiva, automticamente ser o pas ideal para a criana, o idoso, a grvida, o TODOS. 

Movimentos oficiosos e oficiais, avante! 

Implementemos uma poltica (de preferncia com alianas pblicas) de combate ao preconceito de qualquer natureza. 

Sero TODOS trabalhando em prol do TUDO. 

Essa rede de pessoas, de profissionais e de conselhos, principalmente o de Direitos e os Tutelares, agiriam no mesmo sentido, interagindo, trocando, articulando e, finalmente, mobilizando a sociedade. 
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Dessa forma ficam mantidos, inclusive, dois grandes princpios descritos no Art. 88 do Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA): a necessidade da descentralizao e da participao. 

Nesse contexto das redes, ser preciso rever festas, rituais, terminologia, sentido, objetivos, metas, TUDO. 

Muitas das conquistas que tiveram propsito e lugar histrico, mesmo tendo significado avano social um dia, agora devero ser revistas. 

Por exemplo: 

No ms de agosto, com a celebrao, no Brasil, de uma semana dedicada s pessoas com deficincia, a imprensa abre seu corao e seu espao para abordar dificuldades e conquistas de indivduos com algum tipo de comprometimento (nessas matrias, ainda, quase sempre, transformados em vtimas ou heris). 

Finalizadas as celebraes, reprteres e editores, com a sensao de terem cumprido seu papel, encaminham-se para uma noite tranqila de sono. O sono dos justos(?). Acreditam poder ficar mais um ano sem ter que pensar no assunto... 

 o que a sociedade tambm costuma fazer. 

A soluo seria acabar com as semanas dedicadas s pessoas com deficincia? 

Simplesmente ressignific-las. 

Dando, ento, s aes, um sentido mais amplo. 

De que maneira? 

Incluindo as reivindicaes dessa data em contextos polticos e sociais das comunidades local, estadual ou federal. 
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movimento em prol da incluso de pessoas com deficincia na sociedade no pode continuar como casta. 

H vagas no dia a dia da humanidade. 

Por que se contentar em ser lembrado apenas nos dias de festa? 
141 



Captulo 6 

TODOS devem a TODOS, na dvida-social-humana-brasileira 

Com que moeda se paga uma dvida social? Com capital social. Ento cidados brasileiros com deficincia, de qualquer idade, podero ajudar a saldar a dvida que a prpria sociedade tem com eles? Sim. Desde que tenham oportunidade de exercitar seu capital social.  preciso ento o qu? Criar situaes que lhes permitam gerar capital social. 
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D muita dor de cabea pensar sobre sociedade inclusiva. 

Conscientizar-se do quanto  enorme a chamada dvida social brasileira. 

Ou melhor, a dvida-social-humana-brasileira. 

Esta eu nunca vi ser calculada em pesquisas, nacionais ou internacionais. 

No, no me refiro ao ndice de Desenvolvimento Humano, criado em 1990 pelo Programa das Naes Unidas para o Dcsenvolvimento (PNUD) e anualmente revisto pela ONU. 

Sim,  verdade que o IDH mede o grau de desenvolvimento de uma nao de forma complexa como nenhum outro ndice fez e que pegou o Brasil de surpresa em 1999. Uma mudana na frmula de clculo nos retirou do bloco dos pases de desenvolvimento humano elevado para os de mdio desenvolvimento. 

Mas eu garanto: 

O ndice de Desenvolvimento Humano est longe de calcular o rombo da dvida-social-humana-brasileira. 

S que no d mais para adiar. 

Apuremos esse dbito. 

Resgatemos essa dvida. 

Ela est na conta de TODOS ns, cidados brasileiros. 

Cresce dia a dia . 

Explico melhor. 
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Era uma vez... 

Uma criana brasileira. Origem? Classe mdia, urbana. 

Desde cedo, habituou-se a lidar com a idia de que se tinha muito, algum tinha pouco, em geral muito pouco. 

Logo percebeu estar em dbito com as maiores vtimas da m-distribuio de rendas no Brasil: os pobres miserveis. 

Mas, assim como seus pais e avs, cresceu aprendendo a administrar a sensao de culpa advinda desta constatao. Continuou a viver, estudar, divertir-se, viajar... Um bom aluno ou uma boa aluna. 

Essa criana brasileira ento cresce, transforma-se em um adulto honesto, cumpridor de deveres, pagador de impostos, no amolesta os vizinhos nem o sndico, l livros de psicologia para entender melhor os filhos. 

Participa de uma campanha ali, doa cestas bsicas acol, jamais deixou sem auxlio os flagelados de uma enchente. Precisam de agasalhos? O dele, ou dela,  dos primeiros a chegar. 

Quase, quase perfeito. 

Torno-se igualmente um cidado consciente. 

Saber que o Brasil continua com o ttulo de pior distribuio de renda entre os pases em desenvolvimento? 

Sinceramente, a notcia o mobilizou. 

Pela triste constatao, mais que pela surpresa. 

Afinal, ele (ou ela) no  uma pessoa desligada da conjuntura na qual vive. 
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Nem se tornou insensvel, nada disso. 

Continua preocupado(a) com a desigualdade social do pas, mas a supervisiona de longe. Faz o que est a seu alcance para minimiz-la. 

Dbitos sociais sob controle? 

Sim. 

Dbitos sociais e humanos sob controle? 

No. 

NO???????????????!!!!!!!!!! ! 

Porqu? 

Porque no rol da dvida social brasileira no esto includas as dvidas humanas brasileiras. 

Justamente aquelas que se referem a TUDO que a sociedade vem deixando de oferecer s pessoas com deficincias e doenas crnicas por achar serem suas dificuldades um problema daquelas famlias. 

E nunca do TODOS social. 

H um dbito social secular a ser pago s pessoas com deficincia no Brasil. 

Quem gerou esse dbito? 

Esto falando com o cidado errado! 

Lamento. 
146 


Mas o dbito  nosso, da cidadania brasileira. 

Cresceu tanto porque ningum se conscientizava da existncia dele. 

Dvida social, segundo estudiosos do marketing social, entre eles Mrcio Schiavo e Miguel Fontes,  isso: 

Exatamente a diferena entre o que a sociedade oferece e o que deveria oferecer aos seus cidados. 

Dvida-social-humana, segundo eu mesma,  isso: 

A dvida social acrescida da dvida humana. 

No fundo, dvida social e dvida-social-humana so a mesma coisa. 

Basta que a sociedade perceba que a diversidade humana e as diferenas biolgicas (que vo alm da distino do gnero) fazem parte do TODOS social. 

Agora vamos supor que a sociedade j tenha chegado a essa concluso. 

E ento, como se paga uma dvida social? 

Com qual moeda? 

Dlar, real, franco, libra? 

Amor, muito amor? 

Solidariedade? 

Casa, comida, saneamento bsico? 
147 


Nada disso.

A moeda que vai saldar essa dvida chama-se capital social. 

Como j vimos neste livro, capital social, segundo estudiosos do marketing social,  o conjunto de recursos transformadores dos quais dispe uma pessoa.
 
O mais instigante do conceito de capital social  que quanto mais este capital for utilizado, mais crescer. O contrrio vale. No sendo requisitado, atrofia se.
 
Que interessante!
 
Ento cidados brasileiros com deficincia, de qualquer idade, podero ajudar a saldar a dvida que a prpria sociedade tem com eles? 

Sim. 

Desde que tenham oportunidade de exercitar seu capital social. 

 preciso ento o qu? 

Criar situaes que lhes permitam gerar capital social.
 
A entra a sociedade inclusiva. 

Nela, vamos repetir: 

TODAS as pessoas tero o direito de contribuir com seus talentos para o bem comum. 

O que so talentos? A melhor contribuio de cada pessoa.
 
Talentos so recursos transformadores. 
148 


Talentos s se manifestam diante de atitudes inclusivas.
 
Que por sua vez geram reaes inclusivas. 

que seria um comportamento no-inclusivo, um compormento inibidor de talentos? 

Nosso comportamento habitual. 

Acordemos!
 
As pessoas sem deficincia so, na maioria das vezes, o maior problema das pessoas com deficincia.
 
"Mas como? No fazemos nada para atrapalh-Ias", dir agum.
 
E eu respondo: 

E por isso mesmo.
 
Atitudes passivas, no mnimo bloqueiam o acesso de crianas, Jovens e adultos com deficincia a direitos descritos na Constituio Federal. 

Bloqueiam porque no facilitam. 

De um lado, limitaes e obstculos muito bem construdos e consolidados no imaginrio das pessoas. 
Do outro, a garantia de que pessoas com deficincia tm potencialidades e perspectivas.
 
Detm uma fbrica de capital social, 

Uma verdadeira casa da moeda de capital social, 
149 


um banco central! 

Que fazer para comear a pagar a legtima divida social brasileira? 

A TOTAL, no a parciaL ... 

Dar visibilidade a ela. 

Ningum paga se no sabe que est devendo! 

(E acaba pagando por ltimo a dvida de quem no se manifesta sobre ela). 

Nesse processo, haver quem, mesmo sendo alertado sobre este novo dbito, no consiga se sentir compromissado com ele. 

Ter vontade de sanar este dbito  dar um passo mais adiante. 

 preciso que os credores-pessoas com deficincia-batam  porta da sociedade TODO dia. No para se fazerem de vtimas, obviamente. Mas para lembrar que existem e esto a para consumir, trabalhar, fazer parcerias. 

Uma comunidade habituada a trabalhar sob parcerias naturalmente dar conta de mais aliados. 

E quem no sabe fazer parcerias? 

Aprende. 

Pensar, interagir, trocar. 

Botar a cabea para funcionar. 

No  o que fazemos ao ter acesso a informaes importantes? 
150


Ser preciso respeitar as caractersticas de cada comunidade. 

Sair para a comunidade. 

0uvir com legitimidade pessoas com deficincia da comunidade. 

Nesses momentos, faamos uso da tica universal. 

Aquela que valoriza o fator humano, com suas crenas, valores, identidades e mazelas acima dos aspectos sociais. 

Porque antes de sermos grupo social, somos grupo cultural. 

E antes de sermos grupo cultural, somos indivduos. 

No parece lgico? 
151 


Captulo 7 

Nem TODO o bem com a escola regular, Nem TODO o mal com a especial 

Escola  o local onde as geraes se encontram, se entendem e se reconhecem como parte de um TODO humano e social indivisvel, desenvolvendo juntos a tcnica, a intuio, a flexibilidade e a arte de formar, entre si, parcerias indispensveis futuro da nao. Nesse modelo de escola as dificuldades e as limitaes (reais, temporrias ou no) de cada estudante, funcionam como estmulo para o enfrentamento dos desafios da vida comunitria, que com certeza transcendem os limites do ensinamento que as salas de aula, hoje, proporcionam aos alunos. 
153 



Por que, to prximos do sculo 21, o assunto deficincia continua sendo visto como um problema da famlia? 

Esta  uma longa e triste histria. 

Crianas nascem aptas a lidar com qualquer tipo de diferena.
 
Para elas, aquela histria de que TODOS somos deficientes funciona. 

Funciona, mesmo. 

No se trata apenas de uma frase politicamente correta que, entre os mais velhos, acaba esvaziando a discusso sobre as diferenas relacionadas ao corpo e ao intelecto, em vez de promulg-la. 

Sendo o cotidiano, com sua diversidade, mais fantstico do que qualquer sonho ou imaginao, seria natural, para cada menino ou menina, crescer reconhecendo a humanidade como ela . 

E no como ns, adultos, gostaramos que fosse. 

Muito cedo, no entanto, famlia e escola, em uma parceria malfica e preocupante, comeam a corromper a meninada. 

Insistem em dizer que a deficincia faz parte de uma quarta dimenso da vida. 

Em casa, o assunto no  abordado com naturalidade. 

Adultos acham at que d azar falar sobre deficincia na hora do jantar (ver captulo 16 do livro Ningum mais vai ser bonzinho, na sociedade inclusiva: A literatura infantil e a fbrica de cidados-pela-metade).
 
Na escola? 
154 


A situao agrava-se. 
Apesar das leis, do empenho do Ministrio da Educao e do Desporto (MEC) e de tantas entidades no-governamentais (como os grupos de ajuda-mtua), alm do interesse de profissionais e universidades, poucas vezes  possvel, em uma instituio de ensino brasileira, pblica ou particular, conviver entre pessoas com deficincias e aprender sobre elas. 

Que bsico! 

Que bvio!
 
Aprender sobre deficincias e doenas crnicas  aprender sobre ns mesmos.
 
 conhecer-nos melhor. 

Esse tipo de informao faz parte da construo da cidadania.
 
Criana tem o direito de se desenvolver exercendo sua capacidade de reflexo, de deciso e de ao em um contexto real. 

No em uma farsa. 

Essa farsa a que me refiro no  conseqncia de atos de profissionais e de autoridades mal-intencionados.
 
Simplesmente, adultos com tantas dificuldades para perceber que a diversidade humana faz parte do TODOS social s poderiam construir uma escola hipcrita assim. 

(Perdoem-me a dureza de alguns termos...)

Tanto a escola regular quanto a especial so farsas. 
155 



So farsas porque reproduzem a humanidade de maneira anmala. 

De um lado, s pessoas com deficincia. 

De outro, apenas as comuns. 

Quem usa culos s fala com quem usa culos? 

Estudantes que tm asma s conversam com quem tem asma
 
Pessoas sem brao s deveriam ser abordadas por outras em idntica situao? 

 assim que os bebs nascem em uma mesma famlia? 

Em agosto, s os lindos e perfeitos? 

Em maio, os nem to bonitos e que necessitaro de mais cuidados? 

Como pode um cidado se desenvolver em escolas segregadoras assim? 

Pasmem! 

Tanto a escola regular quanto a especial segregam!
 
E ... 

As escolas especiais so mais competentes que as regulares. 

Porqu? 

Porque assumem sua natureza segregadora! 
156 


Escolas regulares, ao contrrio, disfaram...
 
Enganam muita gente boa.
 
Escolas regulares podem no ter natureza segregadora, mas exercitam prticas pedaggicas e sociais discriminatrias, sim.
 
So ou no so excludentes? 

Se nosso contexto  a humanidade, e se somos humanos, nosso aprendizado s faz sentido se estiver num contexto humano. 

Nunca desumano.
 
A escola regular reproduz um contexto humano? 

Um contexto naturalmente humano? 

Qual a qualidade das parcerias que crianas e adolescentes aprendem a fazer em ambientes to pouco naturais? 

E nada, nada estimulantes sob a ptica da diversidade humana e das diferenas individuais. 

Ambientes em que seus companheiros so parecidssimos com eles. 

Devem entender do mesmo jeito e na mesma hora... 

Como se os crebros fossem maquininhas feitas em srie! 

Minha maior dvida  a seguinte: 

Se a construo do conhecimento s se d diante de desafios, 

e se a prpria humanidade nos coloca, 
157 


com sua diversidade criadora,
 
em um contexto propositadamente provocador, 

por que a escola regular rejeita essa ddiva? 

Faz TUDO ao contrrio! 

Baseadas em que lgica as instituies do sistema regular de ensino brasileiro, pblico e privado, ainda tantas vezes hesitam em propiciar aos alunos relacionar-se com as diferenasos mais diferentes de sua gerao? 

Digo na mesma sala de aula. Diferenas e diferentes em quais quer sentidos.
 
Mais o tempo passa, mais o problema aumenta. 

 porque quando o adolescente ingressa na faculdade muda TUDO.
 
(Famlia e sociedade planejam TUDO!)
 
Depois de o terem educado em um contexto excludente e que s propunha atitudes excludentes em relao  deficincia (e tambm a outros grupos vulnerveis), famlia e sociedade passam a exigir que, em um passe de mgica, o jovem transforme-se em um profissional atento s minorias. 

Essa mgica no existe! 

A, embora bem intencionado e com vontade de acertar, esse jovem cidado-pela-metade (porque lhe foi negado o direito de se desenvolver vendo a vida como ela ), no tem informao nem cultuou viso crtica sobre alguns assuntos. 
158


Entre eles, incluso de pessoas com deficincia na sociedade. 

Sua cultura, neste aspecto,  de almanaque. 

Sair cometendo erros por a.
 
Excluindo ao desejar incluir.
 
Enfiando os ps pelas mos.
 
Talvez morra sem nem perceber isso...
 
Eram arquitetos, professores, jornalistas, dentistas, mdicos, escritores... 

TODOS foram crianas e jovens sem oportunidade de exercitar um convvio social amplo, autntico, que fosse um convvio ao mesmo tempo social e humano. Um social para TUDO.

 uma constatao:
 
A maioria de nossos jovens no est sendo preparada para fazer negcios sociais.
 
Bons negcios sociais. 

Nos Quais o maior lucro vai direto para a conta da dvida social-humana-brasileira.
 
Negcios sociais envolvem construir alianas. 

Com indivduos mais ou menos diferentes deles. 

A escola especial e a escola regular podem se aliar com segurana porque, acredito, tm o mesmo objetivo: formar cidados brasileiros. 
159


E se esta aliana no vingar?
 
D para mudar um pas sem alianas? 

Como ir adiante sem alianas? 

Aliana.
 
Palavra forte.
 
 o eixo capaz de sustentar qualquer escola. 

Qualquer escola!
 
Tornar a escola brasileira uma formadora de cidados (inteiros)  meta dos Parmetros Curriculares Nacionais, lanados em outubro de 1997 pelo MEC. 

Os Parmetros sugerem que temas transversais como tica, convvio social, pluralidade cultural, meio ambiente, educao sexual e trabalho-consumo, sejam abordados em quaisquer disciplinas. 

H quem pense o contrrio. Incluindo eu.
 
A tica, o convvio social, a pluralidade cultural, o meio ambiente, a educao sexual, o trabalho e o consumo, estes so os temas constitutivos das bases da escola. 

Os contedos programticos  que seriam os assuntos transversais. 

Sobre esse giro na abordagem, vale ler artigos de Montserrat Moreno, professor do Departamento de Psicologia Bsica da Universidade de Barcelona. 

De qualquer modo, a proposta de uma escola democrtica na formao de cidados  antiga .... 
160 


Do tempo da Revoluo Francesa.
 
No mundo ocidental temos avanado.
 
(Apesar de o Unicef calcular que nos pases em desenvolvimento 21% das crianas em idade escolar esto sem acesso s instiuies de ensino).
 
No Brasil, o ensino vem se universalizando. (Ler sobre o assunto na continuao deste livro: O TODOS de Salamanca no  o TODOS de Jomtien).
 
Visivelmente a escola se democratizou.
 
Mas as prticas pedaggicas tradicionais so nossa pedrinha na chuteira.
 
Continuam preparando adultos para um tipo de sociedade em extino.
 
E fazem uma fora danada para continuar se mantendo na contra-mo.
 
Na contramo das propostas educacionais defendidas em TODOS os congressos mundiais nos ltimos anos que, por sua vez, geraram compromissos assinados pelos pases participantes, incluindo o Brasil. 

Est previsto, definido e registrado na quase TOTALidade dos documentos nacionais e internacionais de educao e de direitos humanos mesmo naqueles que usam a palavra TODOS sem o significado de TUDO: 

Escola  local de convivncia e aprendizado universais.
 
Universais, mesmo. 
161 


Esta  a base da construo de escolas inclusivas. Que no futuro chamar-se o escolas regulares, apenas. 

E depois, escolas.
 
Esta  a minha definio de escola inclusiva: 

Local onde as geraes se encontram, se entendem e se reconhecem como parte de um TODO humano e social indivisvel, desenvolvendo juntos a tcnica, a intuio e a arte de formar, entre si, parcerias indispensveis para o futuro da nao. Nesse modelo de escola as dificuldades e as limitaes reais, temporrias ou no de cada estudante, funcionam como estmulo para o enfrentamento dos desafios da vida comunitria, que com certeza transcendem os limites do ensinamento que as salas de aula, hoje, proporcionam aos alunos.
 
(Ler no O TODOS de Salamanca no  o TODOS de Jomtien relatos sobre a implementao de escolas inclusivas por TODO o Brasil.)
 
A escola inclusiva  um bem em si mesma. 

Uma riqueza.
 
No prova de amor.
 
Nem caridade. 

No  uma proposta para resolver o problema da segregao de crianas e jovens com deficincia na escola especial. 

, ao contrrio (como afirma a pedagoga Maria Teresa; Eglr Mantoan, especializada em educao de pessoas com deficincia mental): 

"Uma sada para a crise que hoje enfrenta a escola brasileira". 
162 


Nem TODO o bem est com a escola regular.
 
Nem TODO o mal com a especial.
 
Polariz-las, tornando-as antagnicas,  um erro. 

O fracasso de uma no garante o sucesso da outra. 

Ambas so inadequadas para os ideais igualitriohumansticos do terceiro milnio. 
163 


Captulo 8 


Desperdcio TODO dia? 
Sem trabalho no futuro? 

TODAS as pesquisas que conheo sobre o pensamento do jovem em relao  escola brasileira ratificam a idia da falncia deste sistema, ou de sua quase falncia. A escola inclusiva  a nica capaz de preparar um jovem para as opes de trabalho que o aguardam no prximo milnio. 
165 


A sensao de ver um filho desenvolver-se  contundente.
 
Quase TODO dia, 

quase TODO santo dia...
 
Eles ainda so bem pequenos e TODA sua rotina diria  inspirada na escola.
 
Em funo destes horrios os pais acordam ou almoam mais cedo. Ajudam as crianas no caf da manh, se for o caso, "para no chegarem atrasadas". Colaboram com o uniforme, vestem as meias com os pequenos ainda dormindo. TUDO para que aprendam a seguir as leis da escola. Alguns adultos dividem tambm com os filhos a preocupao, do dever de casa. Do trabalho, pelo telefone, fazem contas, procuram no dicionrio, vasculham bibliotecas e bancas jornais para as famosas pesquisas escolares. 

S de relembrar essa fase com meus filhos Diego e Talita, emociono-me.
 
Que loucura  essa?
 
Que doideira  essa?
 
Que maravilhosa sensao  essa?
 
Ver os filhos crescerem... 

Uma construo engenhosa e paulatinamente feita de pequenas e grandes emoes no dia-a-dia. 

Do desenho que eles trazem meio amassado na pasta da escola  formatura solene da faculdade. TUDO  prazer (preocupaes a gente depois esquece...).
166


Durante anos nossas crianas vo  escola. 

Estaro, nela, preparandose para a vida? 

Levar o fllho quase TODO dia  escola pode ser um desperdcio. 

Triste pensar assim.
 
Exagerado? 

Talvez...
 
Mas a escola que temos est aqum, muito aqum do nosso desejo de mudar o Brasil.
 
 como se comprssemos um terreno, planejando construir nele uma bela casa, mas no adquirssemos tijolos de qualidade suficiente para sustent-la.
 
E continuamos querendo construir uma nao melhor! 

Sem mudar a escola brasileira isso ser misso impossvel.
 
Existem as questes sociais, mas alm disso est provado: 

Nossas altas taxas de repetncia e evaso escolar esto associadas  m qualidade e  rigidez do ensino. 

Ensino incapaz de seduzir os alunos.
 
TODAS as pesquisas que conheo sobre o pensamento do jovem em relao  escola brasileira ratificam a idia da falncia deste sistema, ou de sua quase falncia.
 
No incio deste livro citei a pesquisa Fala Galera-Juventude, Violncia e Cidadania no Rio de Janeiro, feita neste ano de 1999 por pesquisadores da Unesco e da Fiocruz. 
167


Agora volto a ela, retomando os demais aspectos relevantes que o estudo trouxe  tona.
 
Seus resultados indicam, por exemplo, a dificuldade das escolas cariocas em desenvolver a noo de cidadania entre os estudantes. 

Tambm so ineficazes ao prepar-las para o mercado de trabalho.
 
Neste estudo, muitos jovens chegaram a afirmar que confiam mais na mdia do que na instituio onde estudam. 

Mais contradies: 

Embora 67% dos professores entrevistados acreditem que a principal funo da educao  formar cidados, poltica  segundo assunto menos discutido em sala de aula. 

Entre os alunos das classes mdia e alta, 47,2% qualificam o ensino recebido de ruim a regular. 

A desaprovao entre os alunos mais pobres  um pouco menor: 44,5%.
 
As queixas se espalham por TODO o territrio nacional. 

Leia este trecho da reportagem de Franclia Cutrim, publicada em 27 de maro de 1999 no suplemento Teen Galera, do jornal O Estado do Maranho: 

Os anos foram passando, mas a maioria das escolas continua a mesma: o professor sentado na frente da sala de aula e, entre ele e os alunos, uma mesa. Mestres que perpetuam esse tipo de metodologia parecem esquecer da lio de Paulo Freire que dizia ser a escola, sobretudo, gente. 
168 


O estudante do ensino mdio, Felipe Vilela, 15, no coloca em dvida que a escola tem grande importncia em nossas vidas, abrindo caminhos para o futuro. Mas a atitude de certos mestres chateia qualquer estudante. "Fato  que os professores tornam as aulas montonas. Chegam, escrevem no quadro a aula e pronto. Imagine s como  ter que ficar 50 minutos numa sala de aula olhando o professor escrevendo num quadro ou lendo trechos de um livro", reclama Alisson de Souza Melo, 16". 

 um problema do Brasil? 

Dos pases em desenvolvimento? 

Nos pases industrializados, 98% da populao de crianas e jovens esto matriculados na escola. 

Ser que so felizes?
 
Que aprendem?
 
Aprendem o qu?
 
Segundo anlise feita e divulgada pela Organizao para Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OECD), sediada em Paris, 29 pases afirmaram que de 15% a 20% de seus estudantes saem da escola sem as qualificaes necessrias para conseguir e manter um emprego. Os desempenhos acadmicos so baixos, especialmente em cincias e matemtica.
 
Mas no devemos nos guiar por eles.
 
Interessa-nos saber se esses jovens, como os brasileiros, tm diliculdades para enfrentar os complexos desafios do mundo moderno: administrar conflitos, respeitar a diversidade, trabalhar 
169 

 
em equipe, desenvolver pensamento crtico e ter criatividadc nos impasses da vida diria.
 
 isso que o empresariado do futuro (e j do presente) espera de um jovem profissional. Que possa contribuir com seus talentos, com seus maiores talentos para o bem comum, o sucesso e a produtividade da empresa. 

Fechado! 

Fechado o link entre a escola inclusiva e o trabalho inclusivo! 

A escola inclusiva  a nica capaz de preparar umjovem para as opes de trabalho que o aguardam no prximo milnio. 

No primeiro semestre de 1999, representantes de 350 empresas de 18 pases se reuniram em So Paulo. Trocaram experincias na 2. Conferncia de Responsabilidade Social Empresarial das Amricas, evento promovido pelo Instituto Ethos-Empresas e Responsabilidade Social- e pelo Frum da Empresa e Responsabilidade Social das Amricas, em parceria com o Grupo de Institutos, Fundaes e Empresas (Gife). O objetivo foi discutir formas que, indo alm da filantropia, possibilitassem aos empresrios participar ativamente da construo de uma sociedade mais cidad. 

Um dos temas mais abordados no encontro? tica. 

Nele foi comentado uma pesquisa da revista norte-americana Fortune muito cabvel na discusso deste livro. O estudo comprova que investir em uma empresa com preocupaes socias, em um prazo de 20 anos,  90% mais rentvel do que colocar capital em outro tipo de empresa.
 
Tambm no primeiro semestre de 1999 o Instituto Ethos, a Federao das Indstrias do Estado de So Paulo (Fiesp) e a Fundao 
170 


Abrinq promoveram um ato poltico em So Paulo convocando diversas empresas e entidades a assinarem os termos do Compromisso Empresarial para a Valorizao da Diversidade no Local de Trabalho. O documento tem o objetivo de acabar com condutas discriminatrias especificamente nesses locais, prevendo a igualdade de oportunidades e de tratamento.
 
Estou e estarei sempre interessada em acompanhar a abrangncia do conceito de diversidade neste Compromisso. 

De que jeito lida com as doenas crnicas e as deficincias? 

Com que amplitude as inclui? 

De TODO modo, o caminho no tem volta.
 
Hoje, 10% dos US$ 10% trilhes do mercado acionrio americano esto aplicados em companhias com reconhecida preocupao social.
 
Que desejam ter funcionrios vinculados a essa nova mentalidade mundial. 

Esta, alis,  uma pergunta que volta e meia me fao: 

No Brasil, estaro os funcionrios das empresas patrocinadoras de projetos sociais conscientes do significado deste engajamento? 

Ou apenas vaidosos? 

Sentem tais iniciativas do empregador, de qualquer empregador, como ddiva, favor, ou como um desdobramento natural de uma nao que se moderniza? 

E que cresce? 
171 


Somos o pas com o maior nmero de empresas envolvidas em programas de desenvolvimento educacional, profissional, de sade e preservao ambiental. 

Este  um clculo proporcional em relao ao nmero total de empresas brasileiras.
 
Fato  que h R$ 400 milhes circulando em projetos sociais por a. S a Xerox do Brasil repassou, em 1998, R$ 1 milho, no Rio e em Manaus. A Sasse, seguradora da Caixa Econmica Federal, entre outros projetos, patrocina h anos o programa Se liga, Galera!, TOTALmente voltado para a cidadania de alunos entre 13 e 17 anos das escolas pblicas do Distrito Federal. E o Instituto Ethos, criado h um ano, rene 158 empresas dispostas a promover aes de responsabilidade social principalmente interessadas em combater o trabalho infantil. 

Retomando...
 
Quantas dificuldades enfrentam os sistemas de ensino em TODO o mundo! 

A Coria do Norte, por exemplo. Ocupa o primeiro lugar entre os pases avaliados pela OECD na comparao de notas mdias em matemtica entre estudantes de 14 anos da oitava srie. 

O pas merece aplausos? No.
 
Os relatrios sobre a Coria do Norte geram  preocupalo, quando analisados sob a perspectiva da Conveno sobre os Direitos da Criana. Dados expressam a natureza altamente competitiva do sistema educacional daquele pas. Segundo o Comit dos Direitos da Criana da OECD, o estmulo  competio pode estar comprometendo o pleno desenvolvimcnto das habilidades desses jovens desde o incio de suas vidas escolares. Essas informaes esto no relatrio Situao Mundial infancia 1999, do Unicef. 
172 


 inevitvel, agora, lembrar as palestras da professora Maria Teresa Eglr Mantoan:

"O maior problema do ensino  resolver a equao instruo versus formao do aluno"
. 
Quando um estudante, de qualquer srie, alcana boas classificaes em avaliaes locais, nacionais e internacionais, o Estado fica tranqilo e as famlias orgulhosas.
 
TODOS relaxam a guarda.
 
No deveria ser assim. 

Notas boas so apenas um parmetro, alis bem caduco, de avaliao. 

Isso  antigo... 

Em 1923 o suo Jean Piaget, em seu primeiro livro A linguagem e o pensamento da criana, j propunha que os jovens no fossem educados para se transformarem em rplicas dos adultos de suas comunidades. 

Lgico, filsofo, criador de um ramo da epistemologia, reconhecido como "Einstein da psicologia moderna e maior educador do sculo XX", Jean Piaget dizia que a educao deveria estimular o surgimento de criadores, inventores, inovadores, pessoas no conformadas. 

Garantia ainda a inutilidade de prmios e punies. Estava convicto de que as pessoas s aprendem ao sentirem a necessidade de saber aquilo que se deseja que aprendam. Piaget dizia que cada aprendiz tem um jeito prprio de avanar na construo do seu conhecimento, a partir de sua configura 
173 



o individual de inteligncia e das experincias que lhe so propiciadas. 

Os bons educadores sabem: Nunca ir pelos mesmos caminhos Nem esperar idnticos resultados. 

E os pais? 

Mesmo acreditando na singularidade do ser humano e fazendo dela sua inspirao maior no dia-a-dia, se confundem. 

A comparao com o filho do vizinho  inevitvel... 

D uma angstia... 

Pelo menos, fiquemos atentos  idia de que levar nossos filhos  escola TODO dia pode estar sendo uma perda de tempo, dependendo da escola. 

Que valores humanos as crianas aprendem ou desaprendem na escola? 

Jovem precisa desenvolver pensamento criativo e crtico. 

Assim ser hbil ao identificar os diversos TODOS que circundam os discursos polticos. 

No  disso, tambm, que estamos precisando? 
174 



Captulo 9 

O caos  para TODOS 

Ser que remunerar melhor um professor ou qualquer outro profissional garante que ele v acreditar na incluso? E que a execute? Com certeza, no. Um professor pode ter salrio milionrio e continuar no crendo na possibilidade da incluso de alunos com deficincia nas salas regulares. 
175 


No temos ainda, no Brasil, uma escola para TODOS.
 
Nenhum TODOS.
 
Nem o TODOS do social, que costuma incluir o TODOS do gnero, o TODOS da etnia, o TODOS dos idiomas e dialetos, o TODOS das diferenas religiosas e/ou regionais.
 
Neste contexto vive o professor.  

Posso ainda cham-lo de professor primrio?  

Pois bem. Ningum  mais importante na construo da auto-estima social de um cidado do que a sua professora primria (a profisso continua sendo quase sempre exercida por mulheres).
 
E como anda essa professora? 

Que valor a ela se d? 

Que valor ela se d?
 
 freqente, em palestras pelo pas, a seguinte colocao:
 
"Como o professor, mal pago, vai assumir ainda outras responsabilidades, entre elas, a de ter em sala de aula comum, um ou mais alunos com deficincia?"
 
Contra-argumento assim: 

Ser que remunerar melhor um professor ou qualquer outro profissional garante que ele v acreditar na incluso? E que a execute? 

Com certeza, no. 
176 


Um professor pode ter salrio milionrio e continuar no crendo na possibilidade da incluso de alunos com deficincia nas salas regulares. 

O descaso e a remunerao inadequada  carreira de magistrio so realidade, problema srio. 

Mas colocar nesta mazela brasileira a desculpa para continuar perpetuando mazelas maiores , na minha opinio, um contra-senso. 

Outra dvida comum : "Como incluir alunos em salas super-lotadas?"
 
Salas de aula superlotadas no tm impedido que escolas de TODO o pas funcionem, encontrando alternativas para superar o problema. 

O argumento da superlotao, portanto, tambm no  forte o suficiente para interromper o curso de um processo de incluso. 

E se algum acreditar que seja, sim, uma barreira intransponvel? 

Que tente parar o sistema educacional brasileiro, no a incluso de alunos com deficincia em salas de aula comuns.
 
A propsito, j que estamos sustentando a tese da importncia da heterogeneidade entre pessoas em um mesmo ambiente, especialmente no de ensino, reflitamos juntos:
 
Em turmas maiores, h chances de que a diversidade humana esteja melhor representada, o que pode ser bom, timo.
 
Ento a incluso seria facilitada em turmas maiores? Isso mesmo. Esta idia tem sido defendida por alguns especialistas nacionais e internacionais em incluso. 
177 


E a formao do professor? 

Ele pode ser leigo e fazer incluso, praticando-a muito bem.

Ter valores inclusivos no exclui enfrentar dificuldades na hora de implement-los.
 
Mas  bom que as dificuldades venham, para que cada escola v construindo com solidez o seu prprio e particular modelo de ensino. Por isso so importantes as trocas dirias entre os profissionais e a direo da escola sobre os problemas e as solues que com certeza aparecero.
 
Se no existe um manual, como se preparar para fazer incluso?
 
Fazendo. 

Porque incluir  como fazer sexo, beijar na boca.
 
Podemos inclusive ler e decorar as posies de atos sexuais indicadas no famoso livro Kama Sutra.
 
Mas s se aprende a amar, amando.
 
No h como saber:
 
a hora ideal de um casal ter seu primeiro filho;
 
se uma mulher est pronta para ser me; 

se um adolescente tem maturidade suficiente para votar; 

ou se o estmago de um beb j est apto a passar da sopinha para os alimentos slidos. 
Como se faz? Fazendo. 

 preciso fazer. 
178 


E, pronto.
 
O processo de incluso deve ser apoiado pela formao continuada dos professores dentro da escola. 

TODOS os recursos externos sero bem-vindos. Lngua de sinais e o braile deveriam ser ensinados a TODOS os alunos? 

Sim, claro. 

O que mais? O que for necessrio e til para TODA a escola! 

Cada escola sabe de si.
 
Cada professor sabe de si.
 
E onde seu calo aperta....
 
Um ser motivado a mudar  um ser que tem necessidades. 

Uma escola motivada  uma escola que se d conta de suas necessidades.
 
A escola brasileira tem necessidades. 

A incluso vai atender a essas necessidades de reestruturao. 

E o jovem, finalmente, conseguir perceber a relao entre o que desejam que ele aprenda na escola com o destino de seu pas.
 
TODAS as cincias j foram contaminadas pelo caos. 

At as cincias exatas foram contaminadas pelo caos.

Que a educao tambm se disponha a recomear. 
179 

 

Captulo 10 

Escola, bem de TODOS 

Reivindicar para cada escola no Brasil o direito de ser um bem pblico  fundamental, porque sem bens pblicos uma sociedade no consegue se transformar. 
181 


Violncia dentro da escola. 

Em pases desenvolvidos e em desenvolvimento. 

Sempre existiu e neste final de dcada agravou-se. 

Rene desde atentados isolados de jovens armados contra professores e colegas  hostilidade de grupos contra grupos, com objetivos definidos ou no. Para combater as agresses e os homicdios dentro das instituies de ensino, o MEC, o Conselho Nacional de Secretrios Estaduais de Educao (Consed), a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, a Unio Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), a Unesco e o Unicef assinaram um compromisso: a Convocao Nacional pela Educao para a Paz. O projeto inclui treinar professores em tcnicas de enfrentamento da violncia, incentivar a organizao de grmios, estimular a discusso de valores ticos, integrar escola e comunidade, alm de apoiar experincias bem-sucedidas que promovam a paz dentro das escolas. 

Tamanha agressividade entre estudantes reflete, sem dvida, as disparidades sociais do Pas. 

Mas eu acredito que tambm seja a representao mxima uma proposta pedaggica excludente. 

Na escola regular como ela est estruturada, ganhamos base em selecionar. 

Ficamos craques em discriminar. 

Comea com a excluso dos mais gordinhos do jogo de vlei na educao fisica; depois, dos menos dotados intelectualmente da lista dos melhores alunos; continua com a deciso de tirar o menino sem nenhum ritmo da aula de msica (porque ele est atrapalhando) e por a vai.
182 


Competio levada s ltimas conseqncias. 

Segregao. 

Morte. 

Quando se fere um colega, fere-se o sistema, o sistema social que a escola reproduz. 

Natural, portanto, que a violncia se manifeste na escola. 

Onde crianas e jovens passam a maior parte de suas vidas. 

Onde se exercitam socialmente para viver. 

Uma proposta pedaggica eliminatria incentiva outras formas de eliminao, sendo a violncia fisica e o desejo de machucar e tirar a vida do outro sua mais profunda manifestao, 

Como se sente o aluno um pouco mais diferente na escola? 

Sente-se parte do TODOS da escola? 

Do TODOS pblico da escola? 

Pblico no no sentido de governamental, mas no de pertenente ao povo. 

TODOS pblico  construdo com bens pblicos. 

A escola-bem-pblico.  o que desejamos! 

Todavia... 

Que disparate! 
183 


Um bem  pblico, dizem os estudiosos do assunto, quando; 

No gera rivalidade 

(O uso de um cidado no interfere no uso do outro).
 
Nem exclusividade 

(Os que pagam e os que no pagam podem us-lo).
 
Um bem  pblico quando no gera nem competio nem segregao.
 
Mas  isso o que a escola brasileira faz!
 
Que srio! 

Que srio! 

A escola pblica brasileira est longe de ser um bem pblico. 

Promove, valoriza a competio. Ainda  intrinsicamente segregadora. Adora "por  margem....
 
Se no mudarmos a escola, empacamos.
 
No adianta falar de tica em um ambiente no-tico. 

E ento,  possvel combater a violncia fisica nas salas de aula e nos recreios sem mudar, por exemplo, o sistema de avaliao da escola?
 
Avaliaes que contrariam um princpio bsico: as leis da diversidade humana. 

De que jeito a escola brasileira vai dar conta das dimenss humanas de cada aluno? 
184 



S inserindo na sua prtica e no seu projeto poltico pedaggico o que existe de mais humano em TODOS ns: a deficincia. 

A incluso de um estudante com deficincia na sala de aula vai regenerar a escola.
 
Est provado: 

Quanda as instituies de ensino conseguem traduzir o conceito de tica e de bem pblico em experincias cotidianas, tm mais chances de despertar noes de cidadania entre seus alunos. 

E, conseqentemente, de reduzir episdios de violncia.
 
Reivindicar para cada escola no Brasil o direito de ser um bem pblico  fundamental, porque sem bens pblicos uma sociedade no consegue se transformar. 

Escola bem pblico  escola inclusiva. 

Escola inclusiva  escola bem pblico.
 
Assim... 

Acreditar em sociedade inclusiva  perceber a sociedade como bem pblico. 

Para o bem de TODOS ns. 
185 



 
Captulo 11 

TODAS as leis do mundo inclusivo
 
A lei da incondicionalidade  justamente a que garante o TODOS da escola inclusiva. Esta lei impede que nos afastemos do TUDO, optando pelo QUASE TUDO (e olha que a tentao  grande!). A incondicionalidade , alm de meta, estratgia de ao. Impede que nos tornemos arrogantes, pretensiosos. 
187 


H tempos venho estudando o conceito de sociedade inclusiva, assunto tambm do meu livro anterior: Ningum mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva. Repito: Sociedade inclusiva  uma proposta documentada pela ONU em 14 de dezembro de 1990, atravs da Resoluo 45/91 da Assemblia Geral das Naes Unidas. 

Implement-la significa exercitar os princpios descritos nas Normas sobre a Equiparao de Oportunidades para Pessoas com Deficincia, um documento adotado pelas Naes Unidas em 20 de dezembro de 1993, atravs da Resoluo 48/96. O contedo das Normas transcende  proposta de equiparao de oportunidades para pessoas com deficincia.  uma contribuio essencial para o movimento mundial de mobilizao diversificada de recursos humanos.
 
A sociedade inclusiva baseia-se em um princpio elementar:
 
"TODAS as pessoas tm o mesmo valor".
 
O compromisso acima tem a mesma conotao de: "Ame ao prximo como a ti mesmo", expresso na Bblia, no Novo Testamento. 

Talvez por isso o conceito de sociedade inclusiva nos parea to antigo. 

Nada  simultaneamente to novo e to antigo quanto sociedade inclusiva.
 
Sociedade inclusiva  a legtima sociedade para TODOS. 

No adianta tentar reduzir as dimenses deste TODOS.
 
O TODOS da sociedade inclusiva vem dos avessos,
 
das transgresses,
 
dos rompimentos. 
188 


E atua sobre o mais atvico de nossos medos, o da transformao.
 
Nada contra as reformas, mas incluso  revoluo.
 
Para entender o real valor e o carter inovador do conceito de sociedade inclusiva devemos cutuc-lo ao extremo.
 
S ento suas crenas se definem com clareza. 

E as nossas tambm.
 
So trs as leis que garantem a construo de uma sociedade inclusiva: 

1) a da ao e da inteno;
 
2) a de estar em minoria; 

3) a da incondicionalidade. 
189 

 
Primeira Lei 
Da ao e inteno
 
Na sociedade inclusiva as aes, mesmo corretas, so um parmetro insuficiente de anlise. Vale, principalmente, a inteno.
 
Uma nica ao pode ter as mais contraditrias intenes.
 
Suponhamos que certa indstria abra espao para ter pessoas com deficincia em seu quadro de funcionrios. 

A ao  correta, TUDO bem. 

Mas foi motivada por qual inteno? 

A de mecanicamente seguir os pressupostos de uma empresa moderna? 

Ganhar status no meio empresarial, social, poltico? 

Ou, ao contrrio, a deciso est amparada pela lucidez da diretoria? Uma diretoria consciente de que s tendo a diversidade humana representada no ambiente de trabalho o convvio entre TODOS, ali, ganharia legitimidade. 

E estes novos funcionrios com comprometimentos diversos, estaro contemplados nas oportunidades de promoo? 

Ou sero discretamente alijados de alguns processos dentro da empresa? 
191 


Na incluso h troca, sempre. 

TODOS ganham, TODOS perdem.
 
Um sentimento deve ser abolido, pouco a pouco: o de sentir-se bonzinho.
 
Na sociedade inclusiva ningum  bonzinho.
 
Somos apenas - e isto  o suficiente - cidados responsveis pela qualidade de vida do nosso semelhante. 
192 


Segunda lei 

De estar em minoria 

Propostas que defendem a no-excluso referem-se, quase sempre, aos excludos clssicos.
 
So as minorias histricas, no sentido do valor e da abrangncia de sua causa (ou do simbolismo dessa causa), da quantidade de indivduos que representam, de sua participao em alguns processos poltico-econmicos, das injustias que sofreram ou vm sofrendo e at do marketing poltico que as apia. 

Percebo como minorias clssicas ou histricas (apesar de algumas terem se constitudo recentemente) os negros, as mulheres, os portadores do vrus HIV; os ndios, os ex-presidirios, os sem-terra, os meninos de rua, as prostitutas infantis, os que passam fome etc. 

E o conceito de sociedade inclusiva? 

Para mim ele transcende a questo de ser minoria. 

Prope ateno para quem "est em minoria".
 
Estar em minoria  uma situao absolutamente mutante. E abrangente! 

TODOS ns estaremos em desvantagem numrica ou ideolgica vrias vezes no decorrer da vida, sob o risco de sermos discriminados por isso. 
193 


Nestes dias, estaremos felizes por termos colaborado com a implementao de uma sociedade inclusiva no Brasil. 

Ou arrependidos, caso tenhamos nos negado a contribuir e a participar do processo. 

A sociedade inclusiva tem compromisso direto com a deficincia e tambm com TODOS os grupos vulnerveis, principalmente aqueles de pases em desenvolvimento, nos quais TODA dificuldade  agravada pela crise social. 

Como estar vulnervel varia muito... 

Como estar em minoria tambm... 

Fica ainda mais evidente por que sociedade inclusiva  chamada, na prpria Resoluo 45/91, de sociedade para TODOS. 
194 



Terceira lei 

Da incondicionalidade 

Vamos ao exemplo da escola, o mais polmico. 

Pode parecer absurdo acreditar que TODA criana tenha o direito de freqentar a escola regular, incluindo aquela cuja nica forma de comunicao seja piscar os olhos, mas esta  a proposta da sociedade inclusiva. 

No, no  para colocar uma faca afiada no pescoo dos pais obrigando-os a concordar com a idia. 

Nenhuma crena pode nos moldar dentro de camisas-ideolgicas-de-fora. 

Para entender a proposta de uma escola inclusiva  preciso esquecer quase TUDO que conhecemos em termos de ensino no Brasil. 

No  correto imaginar escola inclusiva como a simples soma de duas imagens obsoletas. 

a - imagem obsoleta/estereotipada do deficiente: 

coitadinho; carente; mal estimulado; com sexualidade exacerbada; talvez agressivo; incapaz de ter opinies; de participar; de contribuir; de trocar; de ajudar; eterna criana; vai  escola apenas para se socializar etc. 

b - imagem obsoleta da escola (a brasileira tradicional: 
195 


estilo de cem anos atrs; professor fica na frente dos alunos transmitindo o seu conhecimento, muitas vezes sem qualquer atualizao; no h intercmbio de idias entre os alunos;  proibido falar para no atrapalhar as aulas; objetivo maior  passar de ano (pais e profissionais concordam); notas so a avaliao principal; provas testam quase sempre apenas a capacidade de memorizao dos alunos; aprendizado no  a preocupao central; ningum  incentivado a ajudar ningum; alunos de sries diferentes no se misturam; as carteiras ficam umas atrs das outras, crianas tentam aprender olhando a nuca de seu colegas na classe (raramente seus olhos); s se pensa no vestibular; o trabalho coletivo no  diversificado; escola valoriza a homogeneizao do pensamento, das reflexes, do tempo da respostas e das prprias respostas etc. 

Incluso no  justapor essas duas imagens. 

No  justapor essas duas imagens!!!!!!!!!!!!! 

Som-las seria potencializar erros e riscos. 

Para entender o significado de incluir  preciso imaginar um sistema educacional radicalmente oposto ao atual. Radicalmente oposto ao atual. 

Nele, cabero TODOS os alunos, que tero sua individualidade garantida e dignificada. 

E s ento essa escola dever ser reconhecida como escola. 

Antes disso, pode ser at uma instituio educacional muito sria 

E de qualidade de acordo com outros parmetros. 

Mas no  escola do ponto de vista da sociedade inclusiva. 
196 


Porqu? 

Porque incluir  estar dentro, incondicionalmente. 

O conceito de incluso est relacionado  teoria dos conjuntos, como costuma comentar a professora Maria Teresa Eglr Mantoan. 

Imaginemos o conjunto das Flores do Planeta Terra. 

Se tirarmos apenas uma florzinha, por mais efmera que nos parea sua vida ou suas possibilidades de crescer e firmar-se como flor, esse conjunto deixar de existir na sua completude. 

Pode virar um outro conjunto: 

O de Quase TODAS as Flores do Planeta Terra. 

Mas que fique claro ser este um outro conjunto. 

O conjunto dos Alunos da Escola Inclusiva tambm  indivisvel e magnnimo. 

A lei da incondicionalidade  justamente a que garante o TODOS da escola inclusiva. 

Esta lei impede que nos afastemos do TUDO, optando pelo QUASE TUDO (e olha que a tentao  grande!). 

A incondicionalidade, alm de meta,  estratgia de ao. 

Impossibilita qualquer manifestao de arrogncia. 

Bloqueia nossos mpetos de pretenso, aqueles que deixam transparecer um dos pensamentos mais ranosos da humanidade: 
197 


O de que TODOS somos saudveis e a deficincia  apenas um deslize da natureza (este tema foi discutido em meus livlm anteriores). 
Eu no conheo (nem acredito que exista), em algum lugar do mundo, um especialista na rea de educao que, por mais experincia e ttulos acumulados que tenha, possa ser competente o suficiente para decidir o futuro de uma criana.
 
Lembram-se do livro "A escolha de Sofia"? 

No qual a me, a caminho do campo de concentrao, deveria dizer qual de seus dois filhos deveria morrer? 

(Se a analogia  exagerada, perdo, mas interessa-me que seja til para expressar minhas idias). 

 fato. 

Milhares de crianas e jovens brasileiros vm sendo avaliados atravs de janelas muito pequenas para a grandeza de suas histrias e de suas promessas como cidados. 

Quantos estudantes em potencial so medicados de forma inadequada por alguns neurologistas e psiquiatras que, sem acreditar na possibilidade da incluso, no se permitem colaborar com ela? 

So profissionais que ainda relutam em valorizar a parceria sade-educao. Este assunto  abordado de forma instigante no livro Incluso. Uma revoluo na sade, do psiquiatra mineiro Jos Ferreira Belisrio Filho. Um defensor da incluso.
 
Muito mdicos, no Brasil, subestimam o parecer de professores e psicopedagogos de que sempre vale tentar incluir crianas e jovens com deficincia nas salas de aula da escola regular, sim. 
198 


Uma dose de determinado remdio que excite ou acalme demais o estudante pode impedir, indiretamente, que ele participe do processo escolar a que tem direito. 

E a suponhamos que, dias depois, este menino ou esta menina venha a ser atendido(a) por outro especialista. E que este especialista troque a medicao. E que a nova medicao seja um sucesso. Ser tarde demais? Talvez essa criana j tenha sido avaliada por profissionais que quem sabe a consideraram inapta para freqentar uma turma comum. Haver nova chance? Quando? 

Lembremos tambm que cada pessoa e, conseqentemente, cada profissional, por mais capacitado que esteja avalia de acordo com sua singularidade. Um ser mais rigoroso ou complacente do que o colega. Sortuda a criana que for avaliada com menos rigor? Ou sortuda ser aquela que for avaliada com mais rigor, pensaria algum no adepto da incluso? 

Ser prudente resumirmos TUDO a uma questo de sorte? 

Por isso defendo a incondicionalidade. Miramos o TUDO l longe e nossa meta passa a ser alcan-lo. 
TODO beb nascido em solo brasileiro ou criado nestas terras tem o direito de tentar ir para a escola regular. 

Direito previsto na Constituio. 
199 


Captulo 12 
Cultura: o melhor de cada TODOS

Assim como nas artes, a existncia humana encontra diversificadas formas de desabrochar. 
201


O desenvolvimento divorciado de seu contexto humano e cultural no  mais que um crescimento sem alma.
 
Est no Relatrio da Comisso Mundial de Cultura e Desenvolvimento da Unesco, publicado em 1997 no livro Nossa diversidade criadora, de vrios autores, organizado por Javier Prez de Cullar, presidente da Comisso.
 
Este Relatrio j foi citado no incio do livro.
 
Ele discute como as culturas e os modelos de desenvolvimento se relacionam. Deixa evidente que os critrios nos quais a economia se inspira no esto sendo suficientemente hbeis para propor  humanidade uma vida prazerosa, em TODOS os sentidos. 

O Relatrio anima o leitor ao afirmar que a cultura  a base do progresso. No um instrumento dele. Em contrapartida, questiona:
 
Como ir alm dos parmetros econmicos sem abandon-los?
 
Alguns pases prsperos da sia Oriental apontam sadas. Aqueles povos que permaneceram fiis a seus valores culturais elevaram o nvel de vida de suas populaes a patamares superiores aos de muitas naes do mundo industrial. 

Civilizao humana, mosaico dinmico de culturas diferentes. 

As que se fecham hermeticamente desaparecem? 

As que se isolam de TODAS as outras morrem? 

Ou desaparecem as que so foradas a se abrir para um mundo incapaz de preserv-las?
 
De v-las como parte de um TODOS culturalmente indivisvel? 
202 


O TODOS cultural-humano?
 
Podemos dizer que no TODOS da civilizao-inclusiva-humana devem estar representadas TODAS as culturas. 

TODAS, mesmo.
 
E se ignorarmos umazinha s? S umazinha... Uma com pouca expresso e representatividade? 

A humanidade deixar de estar representada em sua diversidade criadora.
 
No ser mais o conjunto completo das Manifestaes Culturais dos Seres Humanos. 

Quanto mais heterogneo culturalmente for um pas, mais rico poder se tornar.
 
Brasil. Culturas em contato estreito com o mar, outras essencialmente agrcolas ou pastoris. H o povo da floresta, dos pampas, os seringueiros do Acre, as civilizaes do gado e do couro...
 
Pluralidade!

 apenas retrica ou nos sentimos mesmo parte do TODOS cultural na nao brasileira? Tantas culturas se misturaram e ainda se misturam. 

Como saber o que  regra ou exceo? 

Quem conhece o que do Brasil? 

Por qual regio se apaixonou? 
203 


Que cultura regional gostaria de conhecer ou estudar? 

D para fugir dos esteretipos e olhar cada cultura sem preconceito? 

Escapulir do entendimento de que TODO nordestino  bom operrio, no interior do pas s tem caipira, paulista adora trabalhar, carioca vai TODO dia  praia, baiano  preguia pura, negros sambam como ningum? Pior  a relao de determinadas culturas com a imagem da pobreza. Ou da riqueza.
 
A maioria das naes  multicultural. O que diferencia umas das outras? Pode ser a forma como as diversas tradies so vistas. Em alguns pases, o sucesso alcanado pelos imigrantes  percebido como um obstculo s conquistas dos cidados nativos. Isso acontece no Brasil?  

L no fundo, pense:
 
Quantos brasileiros so bem recebidos dentro de cada um de ns:
 
Negar a especificidade de uma cultura  mat-la aos poucos.
 
Negar a singularidade de um indivduo, tambm.

Assim como nas artes, a existncia humana encontra inmeras formas de desabrochar.
 
 clara essa idia! Deveria ser fcil, portanto, incluir nas questes culturais, sempre (de forma transversal), o assunto deficincia. Na prtica,  difcil.
 
Desde 1992 escrevendo sobre temas relacionados s deficincias e s doenas crnicas para adultos e crianas j enfrentei situaes delicadas tentando convencer profissionais daquela rea de que livros com este perfil so cultura. 
204 


Em 1993, procurei uma empresa estatal aqui no Rio onde havia trabalhado para propor que o lanamento de meu primeiro livro, o Muito prazer, eu existo, fosse no hall de seu andar trreo, que j acolhera vrios autores. A resposta foi:
 
No podemos lanar seu livro sobre sndrome de Down aqui porque ele no fala de cultura, e este  um espao cultural.
 
Com certeza, at pelo amplo trabalho de responsabilidade social que a empresa vem desenvolvendo, eu no receberia idntica resposta nos dias atuais.
 
A rea da literatura, principalmente infantil,  das mais fechadas ao tema da incluso de pessoas com deficincia na sociedade. Eu digo da incluso! E no da integrao.
 
Difcil provar que no existe literatura para pessoas com deficincia ou para crianas com deficincia. E sim literatura sobre deficincia para quaisquer crianas, jovens e adultos.
Outra dificuldade surge da certeza de que genericamente se tem de que o tema deficincias e doenas crnicas no  universal. Assim, no seria interessante e til ao pblico infantil ter acesso a ele. 

Espera a: No seria til ao leitor infantil ter acesso a tais temas e discuti-los? 

Se estamos insatisfeitos com os adultos que somos  preciso fazer o qu? 

Mudar a cabea de nossas crianas, em primeiro lugar! 

Nada  mais universal e plural do que a deficincia! 

Remete imediatamente  expresso convvio social. 
205 


 convvio social puro, destilado!
 
Tambm na rea cultural a palavra TODOS tem sido usada de forma discutvel.

Qual o sentido de uma biblioteca para TODOS? 

Qual a definio de biblioteca pblica nos dias atuais? 

Obviamente, adequam-se muito bem aqui os parmetros que definem bem pblico, vistos em captulo anterior.

Biblioteca pblica  aquela que no discrimina qualquer tema, nem impede o acesso de qualquer pessoa ao saber ali contido. Penso que deva ser assim.
 
Conviver harmonicamente com a cultura de algum implica adotar posturas positivas em relao a esta cultura.
 
Por mais extica, estranha e inusitada.
 
Colocar-se no lugar do outro, eis a soluo! 

Ajudar a resguardar TODO o sistema cultural dos outros assim como desejamos que nos ajudem a preservar o nosso. 

As culturas se falam a TODO instante na mesma comunidade.

Nem sempre se comunicam,  verdade. Da os conflitos.
 
Por isso fica impossvel responder esta pergunta, igualmente registrada no livro Nossa Diversidade Criadora: 

Quais as dimenses culturais do bem-estar coletivo de uma sociedade? 
206 


E do bem-estar individual? 

O que  bem-estar cultural para um cidado? Existe isso? 

A resoluo 45/91 da ONU toca de algum modo na questo do bem estar cultural, defendendo que TODAS as agendas de aes devem ter como meta beneficiar pessoas com deficincia em conformidade com suas culturas, suas tradies, seus costumes. Dependendo do estgio de desenvolvimento scio-econmico de cada comunidade e dos recursos que so colocados disponveis a cada cidado, o bem estar cultural parece ser mais ou menos tangvel.
 
J vimos que respeito  uma palavra fraca para traduzir a complexidade do mundo atual. Tolerncia, idem. 

Qual vocbulo traduziria com primor a dimenso cultural do bem-estar de um indivduo?
 
Liberdade.
 
Cultura  bem-estar com liberdade. 

Cultura pode ser entendida, ainda, como um poderoso canal de distribuio atemporal de informaes. 

Mistura tempos, modos, desejos, medos, deuses, cones. 

Uma mquina do tempo muito, mas muito louca.
 
Na sua heterogeneidade traz energia, conscincia, autonomia e capacitao.
 
A obra Nossa diversidade criadora divulga algumas informaes importantes sobre o conceito de liberdade cultural. Ao contrrio da individual, esta  uma liberdade coletiva. 
207 


Compreende o direito de um grupo de pessoas de adotar o modo de vida de sua preferncia, mesclando passado, presente e futuro.
 
A liberdade cultural protegeria o grupo e, simultaneamente, seus integrantes. Ao resguardar modos alternativos de vida, incentivaria a experimentao, a imaginao, a criatividade. 
 
Eu complemento: 

Uma criana, um jovem ou um adulto culturalmente livre, orgulhoso de suas razes,  mais capaz de se conhecer melhor. Assim, definir com segurana extra suas prprias necessidades.
 
 mais fcil saber o que se pretende ser quando se est feliz com o que j se .
 
Em TODOS esses sentidos, a liberdade cultural d s pessoas o direito de se assumirem como so: 
 
Integrais. 

Indivisveis.
 
Cada indivduo  um TODOS pessoal.
 
E nunca, por isso, vulnervel. 

 a fragmentao que gera a vulnerabilidade. 

No contexto dessa discusso, um novo tipo de direito vem surgindo.
 
 o cultural, que deve garantir, aos cidados, o direito de manter e de satisfazer a diversidade de seu modo de vida. 
208 


O Relatrio da Comisso Mundial de Cultura e Desenvolvimento da Unesco define a abrangncia deste conceito: 

O direito cultural  o que assegura a cada pessoa participar plenamente da vida cultural. Todavia, tais direitos necessitam definio mais clara, devendo tambm ser naturalmente incorporados no quadro poltico. 

O direito cultural  parte dos direitos humanos. 

Buscar a incluso de pessoas com deficincia na sociedade  exercitar direitos humanos. 

TODAS essas reflexes nos levam  certeza de que cada cidade, municpio, estado e o prprio Governo Federal devem criar polticas culturais que valorizem a capacidade criadora do homem no mundo em que ele for mais feliz. Desenvolvimento? S se for inspirado e alimentado pela cultura local.
 
Se nenhuma cultura  melhor do que a outra, e nenhum cidado superior ao outro, o desafio para o terceiro milnio  fazer com que a diversidade humana passe a agregar.
 
Em vez de expulsar, como freqentemente tem feito. 
209 


Para no errar em TODOS, de novo

O limite entre o TODOS parcial e o TODOS incondicional, proposto pela sociedade inclusiva, parece bvio. 

 bvio. 

Mas na maioria das vezes no conseguimos perceb-lo. 

Assim como para a maioria das pessoas  difcil crer que o TODOS da diversidade humana no esteja contemplado no TODOS das desigualdades sociais. 

Detectar o que representa ou no avano quando o assunto  incluso de pessoas com deficincia na sociedade vem confundindo profissionais determinados a no cair em algumas armadilhas, inclusive eu. 

Armadilhas construdas por terceiros, que juram estar agindo em prol do TODOS que  TUDO, mas no esto... 

E armadilhas que ns mesmos construmos, e nas quais nos enredamos. 

Como  difcil acabar com o preconceito na idade adulta. 

Ele  fabricado desde o incio de nossas vidas atravs do fenmeno da falta de formao, assunto bastante explorado no meu livro Ningum mais vai ser bonzinho, na sociedade inclusiva e assim resumido: 
211


A falta de formao  um processo silencioso, lento e progressivo de acmulo de noes inadequadas sobre temas-tabu como deficincias e doenas crnicas.
 
A falta de formao d origem ao preconceito. 

 o alicerce do preconceito. 

Portanto, s h uma forma eficaz de combater o preconceito: impedir que se instale, ainda na infncia.
 
Quando adultos, o mximo que conseguimos fazer  domestic-los, dom-lo, civiliz-lo. 

Mas, se nos distramos, justamente por acreditar que esse preconceito habitualmente se manifesta de forma bvia, somos pegos em flagrante, expostos ao mundo em nossas dificuldades.
 
No dia-a-dia, como saber de que TODOS as pessoas esto falando? 

De que jeito no abrir a guarda em relao a um julgamento honesto sobre o TODOS dos governantes? 

O que se passa no TODOS ntimo de cada interlocutor?

Aqui vo algumas dicas. 


1. Incluso social ou na sociedade? 

A incluso  o TUDO. 

Sempre que a palavra incluso estiver acompanhada de um adjetivo, h o risco de que seu sentido esteja sendo restringido. 
212 


Uma expresso bastante utilizada, por TODOS ns, e tambm pela mdia,  incluso social. 

Este social tem o sentido de sociedade?

De TODA a sociedade? 

Ou de socializao?
 
Se a incluso social estiver inserida em um texto qualquer, sobre outros assuntos, essa distino entre a abrangncia de seu significado nem  to importante. 

Torna-se decisivo esmiuar a expresso no mbito das deficincias e das doenas crnicas. Isso porque, nesse contexto, o adjetivo social pode estar confirmando aquela antiga idia de que TUDO o que crianas, jovens e adultos com comprometimentos e dficits maiores desejam  ser contextualizados socialmente.
 
Se o assunto for incluso escolar haver problema. 

Incluso social pode esvaziar lutas, entre elas a de provar que se um aluno com sndrome de Down est na escola regular  para aprender academicamente, e no apenas para se socializar, brincar, participar do coral, das aulas de artes.
 
O social, neste caso, particulariza o TODOS e desmerece pensamentos fortalecedores do conceito de sociedade inclusiva.
 
Mais correto  falar ou escrever incluso na sociedade.
 
E a, se for o caso, referir-se a um ou a outro aspecto especfico, como incluso no trabalho, na escola, nas artes, no turismo. 
213 


2. Universal, pleno e plural 

Aguce seu entendimento ao ouvir as palavras universal, pleno e plural serem pronunciadas. Em tese, universalidade quer dizer atingir indistintamente pessoas de TODOS os nveis e condies. 

Na prtica, estar a deficincia inserida neste TODOS? 


3. Critrios no mudam! 

Sempre que estiver na dvida sobre determinada palavra ou postura relacionada ao assunto deficincia, verifique qual critrio voc usaria se estivesse em situao idntica mas sem a questo da deficincia por perto para confundir. 

Por exemplo: 

Certa vez, determinada campanha do Governo Federal fez uma linda e ecltica foto de um grupo de crianas se abraando. Um menino japons, um negro, uma menina loura, outra ruiva etc. TODOS elegantes, tipo modelo. Havia tambm um menino com sndrome de Down. Esbelto e magro como seus companheiros de foto.
 
Algum me disse:
 
No gostei. Ningum nota que ele  Down. Deveriam ter posto um menino mais gordinho, com mais caractersticas fsicas da sndrome. 

Discordei totalmente.
 
Se escolheram entre os ruivos, os negros, os louros, os estrangeiros as crianas mais bonitas, por que o critrio deveria mudar s em relao ao menino com sndrome de Down? 
214 


A mdia comete deslizes sistemticos de alternncia de critrios quando o assunto  deficincia. A temtica foi abordada no meu livro Ningum mais vai ser bonzinho, na sociedade inclusiva. 


4.  para falar de deficincia? 

H vezes em que usar o vocbulo deficincia incomoda, sim. 

Parece estarmos atrasados, usando uma terminologia antiga. D a sensao de incompatibilidade entre o discurso e a prtica. 

Que estranho! 

Ressaltar o dficit das pessoas quando estamos justamente defendendo o valor de suas possibilidades... E lutando pelo direito de serem iguais nas suas diferenas. 

Cada vez menos eu uso a palavra deficincia com tranqilidade.

Mas tenho certeza de que ela ainda precisa ser utilizada. 

Quem garante que seja percebida no contexto de expresses como diversidade humana, necessidades especiais, diferenas individuais, entre outras? 

Quem pensa em deficincia mental ao ouvir tais expresses? Em TODA deficincia mental?
 
No apontar a deficincia nos discursos deve ser nossa meta.
 
Um dia dever ser assim.
 
No momento, devemos continuar setorizando nossas reivindicaes. 

Entretanto, cuidado! 
215 


Setorizar reivindicaes sempre inserindo-as nos movimentos sociais e culturais brasileiros. 

A tendncia universal  a setorizao, para dar visibilidade s demandas de segmentos sociais excludos.
 
H alguns anos as campanhas eram genricas. 

Hoje no. Cada cidade, municpio, estado, empresa ou organizao no-governamental se preocupa com um subgrupo.

H campanhas s para tirar meninos que cheiram cola das ruas.

Vimos no captulo 5 que crianas e jovens moradores do lixo passaram a ser alvo de programas especficos para eles. 

Ningum faz campanha para poupar, genericamente, a vida dos animais em extino.
 
Uma ONG cuida da tartaruga, outra do mico-leo, uma empresa da ararajuba. 

TODAS, entretanto, esto ligadas na mesma rede de sentidos e de atuao. 

Se modernamente as minorias clssicas se reconhecem em subgrupos, e isso sem perder a identidade de grupo, por que ns, militantes na rea da incluso de pessoas com deficincia na sociedade, deveremos agir diferentemente? 

Ainda  preciso falar de deficincia, sim. 


5. Sociedade no-excludente x sociedade inclusiva 

Ser que as expresses so exatamente sinnimas? 
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Depende de quem fala.
 
Em princpio, no. 

H de se saber: no-excludente em relao a que TODOS? 

Ao TODOS do social que inclui o humano? 

Sociedade inclusiva  o TODOS que ser sempre TUDO, embora inmeras pessoas se utilizem do conceito de incluso como apenas mais um sinnimo de integrao. 


6. Insero.  o seu coringa! 

Vejo que esta  a palavra genrica, quando no queremos nos comprometer nem com o conceito de incluso nem com o de integrao. 
217 


TODA a felicidade nos prximos anos de vida!

D para ser feliz em um pas no qual cada beb tem... 

27% de risco de nascer em uma famlia pobre? 

21% de ter pais analfabetos? 

3,4%de possibilidade de no completar seu primeiro ano de vida? 

A mdia da mortalidade infantil em nosso pas  de 37,5 bebs mortos a cada mil nascidos vivos. A do Nordeste chega a 60,4. 

Esses dados so do Unicef, divulgados no relatrio Progresso das Naes 1999. 

O Brasil bem que tentou. Vem tentando. 

Deveria ter tentado mais? 

No cumpriremos a maioria das metas para a infncia definidas em pactos internacionais no incio da dcada, entre elas a de reduzir a mortalidade infantil em um tero at 2000. 

Mas avanamos:
 
na erradicao da poliomelite; 

na vacinao contra o sarampo, o ttano e a coqueluche; 
219 


na universalizao do acesso  escola (95% das crianas brasileiras hoje entram no ensino fundamental, apesar de s 59% completarem a 8 srie);
 
no combate  mortalidade de crianas em decorrncia de diarrias e infeces respiratrias; 

no ndice de aleitamento materno (cresceu 4% desde 1996, o segundo maior crescimento do mundo, atrs apenas do Ir).
 
A partir do ano de 2001 haver novas convenes internacionais. Nelas sero reavaliados os compromissos a favor da infncia assinados entre pases no final do sculo 20. 

Cada pas prestar contas de suas contas.
 
Dentre as contas brasileiras, uma delas merece ateno especial. 

 que apenas 9% de nosso oramento so investidos no social 

Outros 20% vo para aplacar os juros da dvida.
 
D para ser feliz em um pas como o Brasil? 

D.
 
Enquanto tivermos projetos para ele.
 
Como transform-lo em uma nao inclusiva.
 
Incluso  utopia? 

Pergunta tima. Faz pensar. 

Dentro de mim essa questo j foi exorcizada. 
220 


No me importa se  utopia.
 
Trata-se do meu caminho, da minha direo. 

 para l que eu vou. 

At por crer que o conceito de sociedade inclusiva seja o nico capaz de servir como anttese  globalizao. 

Se a globalizao se dispe a construir um mundo para TODOS subestimando as diferenas, o conceito de sociedade inclusiva planeja um mundo para TODOS inspirado na glorificao das diferenas. 

Outro dia ouvi em uma palestra que para trabalhar em redes  preciso aprender a lidar com o anonimato.
 
Esse  um exerccio difcil.
 
Porque nos sentimos preciosos ao descobrimos de qual jeito somos capazes de colaborar para o pas que queremos. 

Acontece quando ultrapassamos a barreira que separa o correto do que  mais correto ainda:  estratgico, til, capaz de promover a chamada eqidade social (e humana!). 

A sociedade inclusiva  como a felicidade.
 
Felicidade existe?
 
Dizem que no, mas vivemos para alcan-la.
 
Acordamos TODO dia pensando nela. 

Por enquanto, j sabemos que  impossvel ser feliz o tempo TODO. 
221 



Mas no paramos de almejar a felicidade aos nossos filhos, pais, parentes e companheiros queridos. 

Porque se por um s momento pararmos de inflar tal desejo correremos o risco de soltar algum elo do nosso TODOS maior: 

A eternidade. 
222 


O TODOS de Salamanca no  o TODOS de Jomtien

O que acontece quando cientistas e pesquisadores do ensino regular e de educao especial (na verdade, uma rea s), conversam entre si certos de que esto usando a palavra TODOS com a mesma abrangncia? 

Mas no esto! S que nem sempre se do conta disso.
 
Qual seria a diferena entre:
 
O TODOS da Conferncia Mundial sobre Educao para TODOS, que aconteceu em maro de 1990, em Jomtien, na Tailndia, onde foi redigida a Declarao Mundial de Educao para TODOS, que mudou os rumos da educao no mundo, e 

o TODOS da Conferncia Mundial sobre Educao para Necessidades Especiais: Acesso e Qualidade, encontro realizado em junho de 1994, na Espanha, no qual foi assinada a Declarao de Salamanca, marco para a incluso de estudantes com deficincia em escolas regulares? 

Um TODOS  TUDO, o outro no .

E isso tem dado uma confuso danada.
 
Ainda mais porque o TODOS de Salamanca veio ratificar o TODOS da Tailndia ( o que est l escrito...).
 
H ainda um outro TODOS, o da Declarao Universal dos Direitos Humanos. 
223 



Que TODOS so TODOS esses? 

Esta discusso  o tema abordado na continuao deste livro: 
O TODOS de Salamanca no  o TODOS de Jomtien. Nele so discutidas as formas especficas da utilizao do vocbulo TODOS em documentos nacionais e internacionais de educao e de direitos humanos. E, principalmente, como se deu (e vem se dando), no Brasil, a interseo desses conceitos TODOS. 
224 


Com TODA sinceridade

Nunca escrevi um livro em situao to adversa. 

Nunca me senti to indefesa, temendo ser engolida pelas prprias reflexes.
 
Reflexes so como monstros (eu j comentava no meu livro anterior). Uma vez acordados precisam ser alimentados sem medo com novas reflexes. Seno nos devoram. E qual a hora de parar de refletir? Existe essa hora? 

Tambm temi - e temo - pela minha intolerncia.
 
Difcil conviver com pessoas que pensam diferente de ns... 

Dar a elas o tempo necessrio para elaborar mudanas. Tempo que pode ser infinito (e da?), mas nunca invadido, desmerecido, abortado.  essa tal de singularidade que tanto defendemos.
 
Incomoda-me muitssimo, tambm, as discrepncias vividas no dia-a-dia entre o que falo e fao.  inevitvel. Tomar conscincia do que precisa ser alterado no garante a alterao, ns sabemos.
 
Como  simples falar e escrever sobre o que se tem f.
 
Como pode ser confuso sentir.
 
Paradoxos e contradies fazem parte do processo de evoluo, eu sei, mas...  difcil. 
225 


Como convencer as pessoas de que elas tm necessidade de ter necessidade de lutar por um mundo inclusivo? 

Tal proposta pressupe enfrentar a mais solitria das revolues: a humana.
 
De TUDO, fica a certeza inabalvel do quanto que ns,jornalistas, podemos fazer pelo Brasil. 

Para que a Ptria fique mais gentil.
 
6 de agosto de 1999 
Na WVA Editora. 
226 


Ttulos TODOS

Polmica e participativa discusso norteou a escolha do ttulo deste livro. Ganhou Sociedade inclusiva. Quem cabe no seu TODOS? por traduzir a questo bsica da minha proposta: 

Quer fazer uma revoluo? Comece por voc.
 
Achamos que seria interessante passar aos leitores as outras opes com seus devidos autores.  o marking-off do livro.
 
* Sociedade inclusiva 
Para TODOS ou alguns? 
(Paulo Khler)
 
* Sociedade Inclusiva 
Quem cabe nesse TODOS? 
(Carlos Macedo)
 
* Sociedade Inclusiva 
Quem so TODOS? 
(Romeu Sassaki)
 
* Sociedade Inclusiva 
Para TODOS. TODOS, mesmo. 
(Claudia Werneck)
 
* Sociedade Inclusiva 
TODA excluso ser castigada. 
(Carlos Macedo)
 
* Sociedade Inclusiva 
Meu TODOS. Qual  a sua? 
(Claudia Werneck) 
227 



 
* Sociedade Inclusiva 
Com licena. Quero entrar. 
(Carlos Macedo)
 
* Sociedade Inclusiva 
Para TODOS quem, cara plida? 
(Ruy Pupo)
 
* Sociedade Inclusiva 
 para TODOS. Por que s cabem alguns? 
(Carlos Macedo)
 
* Sociedade Inclusiva 
O mundo  de TODOS. Mas no  para qualquer um. 
(Carlos Macedo)
 
* Sociedade Inclusiva 
Que TODOS sejam um. 
(Paulo Khler)
 
* Sociedade Inclusiva 
TODOS tm futuro? 
(Carlos Macedo)

* Sociedade Inclusiva 
Quando TODOS sero alguns. 
(Carlos Macedo)
 
* Sociedade Inclusiva 
Utopia possvel 
(Cristina Barczinski) 
228 


Bibliografia 
Livros: 
COSTA, Antonio Carlos Gomes da. Pedagogia da presena: da solido ao encontro. Modus Faciendi. Belo Horizonte, 1997 

COSTA, Manoel Augusto (coord.). Populao, meio ambiente e qualidade de vida. Centro de Estudos de Polticas de Populao e Desenvolvimento (CEPPD). Rio de Janeiro, 1990 

CULLAR, Javier Prez de (org.). Nossa diversidade criadora. Relatrio da Comisso Mundial de Cultura e Desenvolvimento da Unesco. Papirus. Campinas, 1997 

CUNHA, Clio da (coord.). Unesco Brasil. Braslia, 1998 

EDLER CARVALHO, Rosita. A nova LDB e a educao especial. WVA. Rio de Janeiro, 1997 

EDLER CARVALHO, Rosita. Temas em educao especial. WVA. Rio de Janeiro, 1998 

KOTLER, Philip. Marketing para organizaes que no visam o lucro. Editora Atlas. So Paulo, 1987 

KOTLER, Philip. Administrao de Marketing: anlise, planejamento, implementao e controle. Editora Atlas. So Paulo, 1992 

LEEUWENBERG, Frans e SALIMON, Mario - Para sempre Auw: os Xavante na balana das civilizaes. Braslia. DF, 1999 

MANTOAN, Maria Teresa Eglr. Ser ou estar: eis a questo - Explicando o dificit intelectual. Coleo Incluso. WVA. Rio de Janeiro, 1997 

SASSAKI, Romeu Kazumi. Incluso. Construindo um mundo para TODOS. Coleo Incluso. WVA. Rio deJaneiro, 1997 

SOUZA, Leila Regina Paiva de (coord.).  espera de justia: assassinatos de crianas e adolescentes na grande Fortaleza. 
229 

fim


